Grupo técnico propõe diagnóstico ambiental da Bacia do Ribeirão Cambé
Termo de Referência entregue ao Município inclui mapeamento da biodiversidade como base para recuperação e gestão da bacia
Na manhã desta sexta-feira (24), o Grupo de Trabalho da Resiliência da Bacia do Ribeirão Cambé se reuniu na sede da Prefeitura de Londrina com o secretário municipal de Planejamento, Orçamento e Tecnologia, Marcos Rambalducci. Eles apresentaram um Termo de Referência que descreve os serviços técnicos especializados para a realização de levantamento, inventário e diagnóstico da biodiversidade na Bacia do Ribeirão Cambé. O objetivo é gerar base técnica qualificada para subsidiar ações de planejamento, conservação e gestão ambiental.

A recuperação da bacia do Ribeirão Cambé, em Londrina, foca em restaurar matas ciliares, controlar o esgoto clandestino e conter o assoreamento que afeta o Lago Igapó. O ribeirão enfrenta sérios problemas de esgoto clandestino, excesso de nutrientes (fósforo e nitrogênio) e presença de poluentes diversos, como óleo e detergente. Em 2025 e início de 2026, o Lago Igapó (formado pelo ribeirão) apresentou coloração verde intensa devido à proliferação de algas e cianobactérias, indicando um ecossistema em colapso.
Diante do cenário, a Prefeitura intensificou obras de limpeza e desassoreamento em pontos críticos, como o Ribeirão Cambezinho (no Aterro do Igapó), para tentar reduzir alagamentos e melhorar o fluxo hídrico. No momento, a situação é de mobilização técnica para reverter a degradação histórica acumulada ao longo de décadas. A atual gestão assumiu a pauta como prioridade, enfrentando um problema de grande magnitude que, por anos, foi deixado em segundo plano.
A recuperação efetiva depende de um conjunto complexo de intervenções, que estão em diferentes estágios. A lista inclui revitalização de nascentes; recuperação da mata ciliar, considerada uma ação urgente e obrigatória para filtrar poluentes antes que cheguem ao curso d’água; e fiscalização de esgoto, com intensificação das vistorias pela Secretaria Municipal do Ambiente (Sema) e a Companhia de Saneamento do Paraná (Sanepar), para identificar e lacrar ligações irregulares, que são as principais fontes de carga orgânica no ribeirão. Os integrantes do grupo do trabalho destacam que o desassoreamento, por si só, não será efetivo se não vier acompanhado dessas ações estruturantes que atuam na origem do problema.

O Grupo de Trabalho da Resiliência da Bacia do Ribeirão Cambé atua com especialistas e gestores públicos para discutir estratégias de planejamento, sustentabilidade e gestão dos recursos hídricos no município. O grupo reúne profissionais altamente qualificados (majoritariamente doutores) de diversas instituições estratégicas: professores e pesquisadores da UTFPR – Campus Londrina e da Universidade Estadual de Londrina (UEL); representantes das secretarias municipais de Planejamento, Orçamento e Tecnologia, de Obras e Pavimentação e do Ambiente (SEMA); representantes do Instituto de Desenvolvimento Rural (IDR-Paraná) e da Secretaria Estadual de Inovação, Modernização e Transformação Digital.
O grupo é liderado pela Secretaria Municipal de Planejamento, Orçamento e Tecnologia. Durante a reunião, o secretário da pasta, Marcos Rambalducci, explicou que o Termo de Referência apresentado é resultado de uma série de encontros técnicos realizados pelo grupo de trabalho responsável por estudar as bacias hidrográficas urbanas de Londrina. Segundo ele, o documento reúne as primeiras propostas estruturadas para a recuperação da Bacia do Ribeirão Cambé, seguindo uma sequência lógica de ações a serem executadas pelo município.

O secretário destacou que o material estabelece um roteiro técnico que deve orientar intervenções voltadas a tornar a bacia mais resiliente a eventos climáticos extremos, incluindo medidas como recomposição da biodiversidade e possíveis ações de desassoreamento do Lago Igapó. “Este documento traz as primeiras soluções e propostas dentro de uma sequência lógica de atuação para a bacia do Cambé, indicando o caminho que precisa ser seguido pela municipalidade”, afirmou.
Rambalducci também adiantou que novas entregas devem complementar o trabalho, incluindo um diagnóstico inicial da qualidade da água, com identificação de pontos críticos de contaminação por coliformes. De acordo com ele, essas informações serão fundamentais para combater a proliferação de espécies invasoras no Lago Igapó e avançar nas ações de recuperação ambiental. “Após a Bacia do Cambé, o grupo deve concentrar esforços em outras regiões, como a bacia da zona norte, que inclui o Lago Cabrinha, ampliando o planejamento ambiental no município”, acrescentou.
O professor Jorge Alberto Martins, da UTFPR, que atua no Programa de Pós-Graduação em Engenharia Ambiental, destacou que o Termo de Referência apresentado integra um conjunto mais amplo de estudos técnicos voltados à recuperação da bacia. Doutor em Ciências Atmosféricas pela Universidade de São Paulo (USP) e com pós-doutorado em Recursos Hídricos na Suécia, ele explicou que já existe um trabalho em andamento de monitoramento da qualidade da água do Lago Igapó, com resultados parciais que ainda serão apresentados.
Segundo o pesquisador, novos termos devem ser elaborados, incluindo estudos sobre vazão atualmente inexistentes, fundamentais para compreender o comportamento hídrico em períodos de seca e chuva. Ele alertou que a situação do Ribeirão Cambé é crítica, com presença de poluição difusa, acúmulo de sedimentos, contaminação por esgoto e ocorrência de espécies invasoras. “A situação é a pior possível, com contaminação, presença de sedimentos acumulados ao longo do tempo e esgoto em diversos pontos do sistema, inclusive na nascente”, afirmou.
De acordo com Martins, a complexidade do cenário exige uma atuação estruturada, com etapas que envolvem diagnóstico, coleta de dados e definição de estratégias. “O grupo está focado, neste momento, na compreensão detalhada dos problemas para, posteriormente, subsidiar o poder público na elaboração de projetos de curto, médio e longo prazo. Trata-se de um problema complexo, que exige primeiro entender bem a situação para então definir os caminhos e soluções que possam ser implementadas de forma eficaz”, pontuou.
Qualidade da água do Ribeirão Cambé apresenta alto nível de contaminação

O engenheiro civil e professor de Engenharia Ambiental da UTFPR, Orlando de Carvalho Junior, doutor em Hidráulica e Saneamento, apresentou um estudo desenvolvido pela universidade que monitora a qualidade da água do Ribeirão Cambé desde o ano passado. O trabalho incluiu quatro campanhas de coleta em 2025 e duas já realizadas em 2026, analisando parâmetros como matéria orgânica e contaminação fecal. Os resultados indicaram comprometimento significativo da qualidade da água em praticamente todos os pontos avaliados, com presença recorrente de coliformes totais e E. coli, evidenciando poluição ao longo de todo o curso do ribeirão, inclusive já na nascente.
O levantamento também apontou que, embora os lagos formados ao longo do percurso atuem parcialmente como sistemas de amortecimento da carga orgânica, esse processo favorece o acúmulo de nutrientes, como o nitrogênio, em níveis elevados, muito acima dos considerados adequados, o que contribui para episódios de eutrofização, como a coloração esverdeada registrada no Lago Igapó. De acordo com os dados apresentados, a concentração de nitrogênio permanece alta mesmo após esse “tratamento natural”, indicando um sistema já caracterizado como eutrofizado. Além disso, os parâmetros analisados não atendem aos limites estabelecidos pela Resolução Conama nº 357 para corpos d’água de classe 2, reforçando o diagnóstico de degradação ambiental do ribeirão.

Sobre a bacia – A bacia do Ribeirão Cambé nasce no sopé da Serra Formosa, na área rural entre Londrina e Cambé, próximo ao trevo da PR-445 com a BR-369, e termina desaguando no Ribeirão Três Bocas, após atravessar a zona urbana de Londrina e formar o Lago Igapó. A bacia abrange cerca de 75 km² e é um importante sistema hídrico urbano.
Ele tem cerca de 20 afluentes diretos e indiretos e abrange os municípios de Londrina e Cambé, sendo 97% da área em Londrina. O Parque Arthur Thomas, que é parte vital da bacia, foi reaberto em dezembro de 2025 após uma ampla revitalização, servindo como um ponto de preservação ativa dentro do perímetro urbano.




