Destaques

Alunos da EJA transformam memórias em arte para exposição na Prefeitura

Segunda edição da EXPOARTEJA apresenta trabalhos produzidos por estudantes de 38 escolas municipais e três CCIS, inspirados pela obra e trajetória de Cora Coralina

Quase 300 atividades produzidas por alunos da Educação de Jovens e Adultos (EJA) da rede municipal de ensino ficarão disponíveis para toda comunidade londrinense apreciar, a partir desta terça-feira (20). A exposição “A Poesia que Não se Esquece: Resgatando Memórias com Cora Coralina através da Arte” foi instalada no saguão da sede administrativa da Prefeitura de Londrina, e será lançada às 15h de amanhã. Esta será a segunda edição da EXPOARTEJA, composta por colagens, pinturas, esculturas, xilogravuras e modelagens, todas produzidas pelos estudantes das turmas de EJA de 38 unidades escolares mais os três Centros de Convivência da Pessoa Idosa (CCIs Leste, Oeste e Norte). 

Foto: Emerson Dias/ NCom

A premissa da exposição, que reúne a memória com a obra de Cora Coralina, foi abordada entre os professores e gestores durante uma formação conduzida pela Secretaria Municipal de Educação (SME) em parceria com o Instituto Não Me Esqueças. Como muitos dos alunos da EJA já são idosos, a memória e o declínio cognitivo fazem parte não só da rotina escolar como também dos assuntos abordados pelos estudantes com os professores.  

Dessa forma, a capacitação gerou um material pedagógico para orientar os docentes a abordarem, em suas turmas, a trajetória da poetisa e cronista goiana Cora Coralina junto com o conteúdo curricular. Simultaneamente, os professores estimularam os alunos a trazerem suas vivências e traduzirem na forma de arte. E a partir desta terça (20), 298 trabalhos ficarão à mostra no saguão da Prefeitura. 

Aluna Carla Carolina Moreira, da E.M. Maria Carmelita Vilela Magalhães. Foto: Emerson Dias/ NCom

Na turma vespertina da EJA na Escola Municipal Maria Carmelita Vilela Magalhães, Carla Carolina Moreira, de 34 anos, disse que gosta muito de ir para a escola e seu sonho é aprender a ler. Se sentiu muito acolhida na turma e, assim como seus colegas, elaborou e pintou um prato de argila, além de produzir placa com o próprio nome. “Usei a cor rosa, porque minha avó gosta. Meu desenho é uma rosa pela lembrança da minha madrinha, que já faleceu e gostava muito de flores, de rosas. Ela foi como uma mãe para mim”, contou.  

Além de Carla Carolina, a turma de EJA conta com outros seis estudantes no turno da tarde e outros oito no período matutino. Conduzindo as aulas, estão as professoras Margarete Nunes Vieira Mazzoni e Patricia Guedes de Almeida.  

Professora Margarete Nunes Vieira Mazzoni. Foto: Emerson Dias/ NCom

“Diferente do público de outras turmas da EJA, temos alunos que são jovens adultos, entre 20 e 40 anos, então para trabalhar o tema da memória conversamos com eles sobre as lembranças de infância, que são mais recentes. Depois, trouxemos a argila para apresentar essa textura, e eles usaram para produzir pratinhos. Também passamos pela questão do pertencimento e alfabetização, usando a argila e carimbos para escrever o próprio nome”, detalhou a professora Margarete Nunes Vieira Mazzoni.  

Segundo a docente, na decoração dos pratos, os alunos foram incentivados a desenhar algo que remetesse a boas memórias. “E aí um desenho simples saiu no fundo do pratinho. Um é uma pipa, pois gostava de soltar pipa com o irmão, o outro é um sorvete que a avó fazia, o outro era a madrinha que tinha muitas flores em casa. Ficou bem interessante a produção deles”, adiantou.  

Parceria em prol da educação  

Em Londrina, a Educação de Jovens e Adultos na rede municipal atende 595 alunos, distribuídos em 55 turmas matutinas, vespertinas e noturnas em escolas municipais e nos CCIs Leste, Oeste e Norte. Esses alunos estão na EJA para concluírem os Anos Iniciais do Ensino Fundamental, que equivale ao 5º ano.  

A formação continuada para professores, coordenadores pedagógicos e gestores escolares reuniu mais de 85 participantes e foi realizada em agosto, em parceria com o Instituto Não Me Esqueças, que presta suporte a pessoas com demência e seus familiares. De acordo com a coordenadora de Jovens e Adultos da SME, Vanessa Valero, essa atuação conjunta partiu da necessidade pedagógica de desenvolver atividades para a preservação e o estímulo cognitivo dos alunos idosos. “A escolha do tema partiu de observações dos próprios professores, que relataram o surgimento frequente de demandas ligadas à memória no cotidiano escolar, incluindo alunos com doença de Alzheimer e outras condições associadas ao envelhecimento. Atualmente, a modalidade tem se configurado como uma “EJA-is” – pautada no atendimento a idosos, inclusão e imigrantes”, explicou.  

Foto: Emerson Dias/ NCom

Na sequência, a Coordenação da EJA desenvolveu um material pedagógico de apoio aos professores, com foco na trajetória de Cora Coralina, que publicou seu primeiro livro aos 75 anos e consagrou-se como uma das maiores escritoras do país. “A partir das diretrizes da formação e do material pedagógico, os educadores atuaram como mediadores em sala de aula, orientando e incentivando os estudantes a explorarem sua subjetividade e a transformarem suas vivências pessoais em produções artísticas autorais. E a mostra “A Poesia que Não se Esquece: Resgatando Memórias com Cora Coralina através da Arte”, consolida-se como uma ação continuada de valorização cultural e expressão artística da EJA”, acrescentou Valero. 

Para a coordenadora de Jovens e Adultos da SME, a exposição é uma iniciativa que desenvolve o aluno com espaço para seu protagonismo, ao resgatar e valorizar suas memórias. “O processo fortalece a autoimagem, a cognição e o sentimento de pertencimento. A temática ‘Memória’ integra-se de forma transversal e interdisciplinar a todos os componentes curriculares, promovendo uma aprendizagem significativa e contextualizada à realidade dos alunos. E, por fim, a mostra aproxima a população londrinense dessa modalidade de ensino, promover o reconhecimento do trabalho dos educadores e educandos, além de incentivar pessoas que não concluíram o Ensino Fundamental I ou que nunca tiveram a oportunidade de serem alfabetizadas a retornarem aos estudos e realizarem seus sonhos”, completou.  

De acordo com a presidente do Instituto Não Me Esqueças, Elaine Fernandes Mateus, que também preside a Federação Brasileira das Associações de Alzheimer (Febraz), a 2ª EXPOARTEJA valoriza as histórias de vida dos estudantes e mostra como a arte pode abrir caminhos para a expressão de lembranças, sentimentos e experiências. “O fato de a própria EJA identificar a necessidade de formação sobre Alzheimer e outras alterações cognitivas mostra como esse tema está presente em diferentes espaços da sociedade. Para o Instituto Não Me Esqueças, é uma oportunidade de compartilhar conhecimentos e contribuir para uma educação mais acolhedora e inclusiva. Nas nossas oficinas, vemos como cada pessoa encontra suas próprias formas de criar e se expressar, surpreendendo até mesmo os familiares com suas habilidades e descobertas”, afirmou.

Etiquetas
Mostrar mais

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Botão Voltar ao topo
Compartilhamentos