Noite de festa e memórias na reabertura do Museu de Arte de Londrina
Evento de reinauguração mobilizou memórias e afetos de quem viveu a história do edifício icônico em suas diferentes fases
Mais do que a reabertura de um espaço cultural, a noite desta quarta-feira (1º) marcou o reencontro de Londrina com um de seus marcos mais emblemáticos. O edifício que hoje abriga o Museu de Arte de Londrina — projetado por Vilanova Artigas e Carlos Cascaldi, construído entre 1948 e 1952 e tombado como patrimônio nacional — voltou a receber o público após quase sete anos fechado, reacendendo lembranças de diferentes gerações presentes ao evento.
Ao longo da cerimônia, visitantes, artistas e moradores compartilharam histórias pessoais atravessadas pelo prédio, revelando o papel do espaço como ponto de passagem, encontros, despedidas e, agora, de fruição cultural.
O artista plástico Agenor Evangelista, um dos nomes presentes na exposição do acervo do museu, trouxe um depoimento marcado por contrastes entre passado e presente. “Quando era criança e adolescente, passava pelo local. Eu já fui engraxate em frente ao Museu, inclusive fui enquadrado pela Polícia aqui nessa região, por preconceito, por ser negro, sofri discriminação. E hoje estar aqui como artista e parte do acervo do Museu de Arte é de ficar sem palavras”, afirmou. Ele também ressaltou a importância da continuidade dos investimentos no espaço. “O Museu merece essa estrutura e cuidado, isso é muito positivo. Precisamos que ele permaneça assim e que possa crescer”, desejou.

Para o jornalista e documentarista Luciano Pascoal, que exibiu no evento o filme “Londrina, a Cidade Moderna de Artigas”, o retorno ao espaço tem um significado simbólico. “É uma sensação de retorno a um ambiente sagrado para a gente que faz cultura. Voltar aqui com esses arcos iluminados, o prédio recuperado, é ver respeito à cultura, isso é o mais importante. E é um templo que não só guarda a nossa história artística, mas também boa parte da cidade tem uma história com a rodoviária”, disse. Ao lembrar da juventude, ele destacou o caráter cotidiano do local. “Eu peguei muitos ônibus aqui. Na época que eu era adolescente, chegando na idade adulta, eu trabalhava e tinha que viajar para São Paulo. E a gente tomava muito suco aqui, era um espaço de encontros e de despedida, sempre foi”, lembrou.

A aposentada Vitória Sahão, de 72 anos, com trajetória ligada à gestão cultural no Paraná, também associou o prédio à memória de uma cidade em transformação. Lembrou de quando era pequena e subia a rampa com os pais. Também lembrou que, quando crescida, embarcava na Rodoviária para estudar fora. Até término de namoro ela viveu no pátio do edifício. “Tem uma memória afetiva, de emoção e de uma cidade que cresceu”, afirmou.
Ao revisitar o espaço, ela destacou a importância da reabertura para o futuro. “Nossa história só tem a ganhar, estou muito emocionada em viver isso aqui hoje, transitar pelo local e ver a arte viva”, relatou.
Entre os primeiros a chegar ao evento, ainda antes da abertura dos portões, o professor aposentado da UEL, Oswaldo Calzavara, observava atentamente o movimento, sentado nos antigos bancos de espera. Aos quase 80 anos, ele relembrou as viagens da infância. “Eu me lembro da minha vida de moleque, na zona rural de Maringá. Vinha até aqui e pegava o ônibus para Birigui. Me lembro desses arcos todos aqui, daquela época. É emocionante a gente ver como as coisas ficam bem, quando são bem cuidadas, e o espaço está muito bem cuidado”, contou, emocionado.

Ao seu lado, a esposa, a professora aposentada Rosemari Bendlin Calzavara, também reviveu sua relação com o espaço, que frequentou ao longo da vida, inclusive levando alunos para atividades educativas. Ela disse estar muito feliz em viver o momento de reabertura e que pretende voltar sempre que possível para acompanhar a programação cultural.
Para quem chega mais recentemente à cidade, o impacto também é imediato. O artista Claudio Azevedo, morador de Londrina há três anos, estava visitando o espaço pela primeira vez no evento de reabertura. “Estou gostando muito, porque isso faz bem para a cidade”, afirmou. Fotógrafo, ele destacou o potencial visual do edifício e já projeta presença constante. “Este local para a fotografia é incrível, a arquitetura é muito bonita, chamativa. Vou estar continuamente aqui, quero registrar os eventos como um registro histórico, para as gerações futuras”, afirmou.
A jovem Marcela Carvalho, de 21 anos, viveu um reencontro com o local. Ela contou que frequentava o espaço ainda criança, em eventos com a família, e decidiu voltar após saber da reabertura. Percorrendo o prédio com amigas, descreveu a experiência como positiva e disse que pretende retornar com mais tempo para aproveitar as exposições.

No palco, a apresentação do Coro Voz Viva também carregou um significado simbólico. Integrante do grupo, a psicóloga e cantora Mônica Genez resumiu o sentimento da noite. “Esperança!”. Para ela, a reabertura vai além da estrutura física. “Abriu-se não apenas um espaço físico, mas também um lócus imaginário fecundo para que nossos artistas se expressem”, disse.
Ela destacou ainda que a escolha de um repertório popular para a noite teve o objetivo de aproximar o público. “Afinal, a arte e a cultura não devem parecer distantes de nós, elas são expressões que compõem quem somos. Meu sincero desejo é que este espaço seja ocupado pela pluralidade e pela criatividade, em todas as suas formas”, explanou.
Texto: Renan Oliveira e Rakelly Calliari




