“Quase Inverno”, filmado em Londrina, será apresentado em Cannes
Longa de Rodrigo Grota integra a VDF Showcase no Marché du Film do Festival de Cannes 2026
O longa-metragem Quase Inverno, dirigido por Rodrigo Grota e produzido por Guilherme Peraro, foi selecionado para a 2ª edição da VDF Showcase, plataforma internacional voltada a filmes em estágio avançado de desenvolvimento e finalização que estará presente no Marché du Film, mercado oficial do Festival de Cannes, entre os dias 16 e 18 de maio de 2026. O filme integra a sessão First Look e terá uma apresentação oficial no Palais J, em Cannes, no dia 18 de maio, às 11h30, diante de curadores, programadores, distribuidores e agentes do mercado audiovisual internacional.

Produzido pela Kinopus, Quase Inverno é um dos oito títulos selecionados para a sessão First Look, dedicada a obras recém-concluídas com propostas estéticas e narrativas autorais. Durante a exibição, serão apresentados sete minutos inéditos do longa, além de um vídeo especial gravado por Rodrigo Grota para contextualizar a obra ao público do mercado internacional.
Segundo o diretor, a participação no Marché du Film representa um marco tanto para o filme quanto para o audiovisual produzido em Londrina. “O Festival de Cannes é o festival mais importante do mundo e a Marché du Film é o principal mercado de cinema internacional. Estar lá apresentando o filme para curadores, distribuidores e agentes de vendas representa um salto muito grande para a trajetória da Kinopus e também para o cinema produzido em Londrina”, afirmou.
Grota explica que o vídeo exibido durante a sessão apresenta os principais aspectos narrativos e visuais da obra, além de contextualizar o universo dramático do longa. “A gente vai apresentar sete minutos do filme em uma sala de cinema preparada para isso, com som 5.1 e um público especializado. Gravei também um vídeo falando sobre o sentimento do filme, sua proposta estética e os temas que ele aborda”, completou.
Ambientado em 1975, Quase Inverno acompanha três irmãs que retornam à fazenda da família após receberem a notícia de que a mãe está gravemente doente. Ao revisitarem o espaço onde cresceram, as personagens passam a confrontar memórias, traumas e segredos familiares, enquanto lidam com a presença de militares ligados ao irmão que permaneceu na propriedade.

Apesar do contexto histórico marcado pela ditadura militar, Rodrigo Grota destaca que o foco principal do longa está nas relações humanas e na construção das personagens femininas. “O filme não é sobre a ditadura. O que mais nos interessava era mergulhar nesse universo feminino e entender como essas mulheres conseguem se fortalecer quando se aproximam umas das outras”, explicou.
Inspirado livremente na peça As Três Irmãs, do dramaturgo russo Anton Chekhov, o longa também dialoga diretamente com elementos do teatro e da literatura. Segundo o diretor, a proposta visual busca um equilíbrio entre realismo e abstração. “É um filme muito centrado nas personagens, nos diálogos e também nos silêncios. Eu queria construir uma narrativa fluida, que parte de um retrato quase realista e lentamente caminha para algo mais abstrato e não naturalista”, disse.
As gravações aconteceram entre julho e agosto de 2024 em Londrina e Rolândia, com destaque para a Fazenda Bimini, locação histórica utilizada como cenário principal do filme. O espaço, preservado desde os anos 1940, foi fundamental para a construção da atmosfera da obra. “A fazenda era praticamente a alma do filme. Muitas vezes, usamos os espaços, as árvores, a luz e a paisagem para expressar o estado interior das personagens”, contou Grota.
Além da Fazenda Bimini, o longa também teve cenas rodadas em espaços como a Universidade Estadual de Londrina e o Museu Histórico de Londrina, recriando visualmente o norte do Paraná dos anos 1970.
Para o diretor, produzir cinema fora do eixo Rio-São Paulo também se tornou um diferencial importante no cenário contemporâneo. “Existe hoje um interesse crescente por histórias ambientadas em lugares que raramente aparecem nas telas. Londrina tem paisagens muito cinematográficas e uma identidade cultural própria, que desperta curiosidade no público e na crítica”, compartilhou.
Quase Inverno marca o décimo longa-metragem produzido pela Kinopus, produtora fundada em Londrina em 2004 por Rodrigo Grota e Guilherme Peraro. O projeto também representa um novo momento da empresa, que ampliou sua estrutura de produção para realizar o filme. “Foi um grande salto para a Kinopus. Conseguimos trabalhar com uma estrutura maior, equipamentos melhores e um elenco com trajetória nacional e internacional. Isso só foi possível graças aos recursos do edital de Arranjos Regionais”, destacou o cineasta.
Grota também ressaltou a importância das políticas públicas de incentivo ao audiovisual em Londrina. “Londrina foi a primeira cidade do interior do Brasil a conseguir aprovação nesse modelo de arranjo regional junto à Ancine. Foi fundamental para que a produção do filme acontecesse”, apontou.
Após a passagem por Cannes, Quase Inverno estreia oficialmente no circuito de festivais brasileiros em junho, durante a 15ª edição do Olhar de Cinema, em Curitiba, onde integra a Competitiva Brasileira.
A expectativa da equipe é ampliar a circulação internacional da obra nos próximos meses. “Existe hoje um interesse muito grande por dramas familiares e por narrativas femininas no cinema contemporâneo. A gente acredita que o filme tem potencial artístico e comercial para circular internacionalmente”, concluiu Rodrigo Grota.
O longa-metragem “Quase Inverno” é uma produção da Kinopus, que conta com patrocínio do Governo Federal via Ancine, FSA e BRDE, e em edital de Arranjos Regionais pela Prefeitura de Londrina.
Texto: Laura Gonçalves, sob supervisão dos jornalistas do Núcleo de Comunicação (N.Com) da Prefeitura de Londrina




