Longa londrinense é selecionado para festival internacional na Guatemala
“Quase Inverno” está entre os dez filmes da Competitiva Internacional de Longas do Festival Ícaro, que será realizado em novembro
O longa-metragem londrinense “Quase Inverno”, escrito e dirigido por Rodrigo Grota, foi selecionado para a 29ª edição do Festival Internacional de Cine en Centroamérica (Ícaro), considerado o maior festival internacional de cinema da América Central. O evento será realizado entre 6 e 28 de novembro, na Guatemala, com exibições e atividades itinerantes em outros países. A produção é a única brasileira entre os dez filmes escolhidos para a Competitiva Internacional de Longas.
Organizado pela Casa Comal, o festival reúne produções de diferentes países e promove a circulação de obras pela América Central, pelos Estados Unidos, pelo México e pela Espanha. Para o diretor, a seleção amplia o reconhecimento da produção audiovisual local e evidencia a diversidade do cinema nacional contemporâneo. “É uma conquista muito importante para o Cinema Brasileiro, e, em especial, para o Cinema Londrinense”, afirmou.

A participação em eventos internacionais também pode abrir caminhos para a distribuição dos filmes, um dos principais desafios do setor. Grota destacou que os festivais são uma oportunidade de ampliar a visibilidade das produções independentes. “Nunca foi tão fácil produzir um filme. E nunca foi tão difícil conseguir que ele seja visto”, observou.
A experiência de Grota com a circulação internacional começou com seu primeiro longa-metragem, “Leste Oeste”, que conquistou prêmios nos Estados Unidos, no México e na Holanda. Segundo o diretor, o reconhecimento em festivais contribuiu para que o filme conseguisse uma distribuidora internacional sediada em Los Angeles e chegasse a plataformas de vídeo sob demanda em diferentes países. “A produção alcançou mais de 500 mil espectadores em um único link de distribuição”, relatou.
A trajetória da produtora Kinopus, responsável pelo longa, também reflete o desenvolvimento do audiovisual em Londrina. Fundada em 2004, a empresa acumula mais de 70 premiações em festivais nacionais e internacionais e realizou coproduções com França, Argentina, Polônia e Chile. Desde 2014, produziu 11 longas-metragens e oito séries, reunindo profissionais da região em diferentes etapas dos projetos. Para o produtor Guilherme Peraro, sócio-fundador da Kinopus, esse processo permitiu identificar e valorizar talentos locais. “O audiovisual feito no interior tem uma qualidade cada vez maior”, avaliou.

Produzido com recursos do Edital de Arranjos Regionais, promovido pela Agência Nacional do Cinema (Ancine) e pelo Governo Federal, em parceria com a Prefeitura de Londrina, o longa foi rodado entre julho e agosto de 2024, em Londrina e Rolândia. O financiamento público também é apontado por Grota como um dos pilares para a consolidação do audiovisual no município. Além da produção de filmes, o diretor ressaltou a importância de investimentos na formação de profissionais, na exibição e na preservação cinematográfica. “Sem o financiamento público da Prefeitura de Londrina, arrisco dizer que não teríamos consolidado o Cinema Londrinense nos últimos 25 anos”, disse.
A atuação das políticas públicas, segundo o diretor, vai além do apoio financeiro às filmagens e envolve a construção de uma cultura cinematográfica permanente. Grota cita iniciativas de formação e difusão, como as Oficinas Kinoarte, a Kinoarte Mostra Curtas e o Kinoclube, além de projetos desenvolvidos pela Kinopus, como as Oficinas Kinopus, a Sessão Kinopus e o Dramátika – Núcleo de CineDramaturgia. As atividades contribuem para formar profissionais, aproximar o público das produções e fortalecer a cadeia audiovisual local. “Você não somente faz filmes, mas precisa formar público, formar profissionais, restaurar filmes e fortalecer a economia criativa do setor”, explicou.
Para Grota, produzir cinema fora do eixo Rio-São Paulo ainda envolve dificuldades relacionadas à disponibilidade de recursos, equipamentos e mão de obra especializada. A busca por editais estaduais e federais, parcerias com a iniciativa privada e projetos de formação são estratégias para enfrentar esses obstáculos. O diretor também destacou que a consolidação de um setor audiovisual depende da continuidade dessas ações, capazes de manter profissionais atuando na cidade e criar condições para novas produções. “Tentamos sempre driblar essas dificuldades buscando recursos em editais federais e estaduais, em parcerias com a iniciativa privada, e oferecendo cursos para formar profissionais e espectadores na cidade”, contou.
O secretário municipal de Cultura de Londrina, Marcão Kareca, destacou que o reconhecimento internacional de produções locais reforça a importância do incentivo à cultura para o desenvolvimento do setor audiovisual. “A seleção de ‘Quase Inverno’ para um festival internacional tão importante demonstra a qualidade e a força do audiovisual produzido em Londrina. Esse reconhecimento também evidencia a importância das políticas públicas de incentivo à cultura, que criam oportunidades para os nossos profissionais, fortalecem a cadeia produtiva e permitem que as produções locais alcancem novos públicos. Investir em cultura é investir na identidade da cidade, na geração de oportunidades e no reconhecimento de Londrina no cenário cultural nacional e internacional”, afirmou.
Sobre o filme
Ambientado na década de 1970, após a geada histórica que provocou uma crise na economia cafeeira do Norte do Paraná, “Quase Inverno” acompanha três irmãs que retornam à fazenda onde nasceram diante do agravamento da doença da mãe. Ao lado do único irmão que permaneceu no local, elas recebem a visita de militares, situação que desencadeia conflitos e resgata memórias familiares. A narrativa é inspirada na peça “As Três Irmãs”, do dramaturgo russo Anton Tchekhov, mas desenvolve uma trama original, com foco nas personagens femininas e em seus conflitos internos.
Parte das filmagens foi realizada na Fazenda Bimini, em Rolândia, propriedade da família Steidle. A escolha do cenário contribuiu para construir uma atmosfera atemporal, em que o espaço também participa da narrativa. Grota explicou que a adaptação da obra de Tchekhov não se concentrou em reproduzir a trama teatral, mas em investigar as personagens e seus conflitos. “Queria fazer um filme centrado no trabalho dos atores e no texto, e que tivesse uma estética não naturalista”, explicou o diretor.
O elenco principal reúne Ondina Clais, Simone Iliescu, Luiza Quinteiro, Guilherme Kirchheim, Esther Góes, Erom Cordeiro, Fernando Alves Pinto, José Maschio e Sabrina Greve. A equipe técnica conta com Anderson Craveiro na direção de fotografia, Oswaldo Eduardo Lioi na direção de arte e Jackeline Seglin na direção de produção, entre outros profissionais. O filme foi escrito, dirigido e montado por Rodrigo Grota, com colaboração de Roberta Takamatsu no roteiro e João Vitor Moreno na montagem.
Após a estreia em junho, na 15ª edição do Olhar de Cinema, em Curitiba, “Quase Inverno” terá uma nova exibição em Londrina durante o 28º Festival Kinoarte de Cinema. Para Grota, apresentar a produção na cidade em que foi concebida também contribui para fortalecer a relação entre o cinema e a identidade cultural da região. “É muito importante compartilhar as paisagens e personagens do Norte do Paraná com o público que conhece essa atmosfera de perto”, destacou.
Exibição de “Quase Inverno” no 28º Festival Kinoarte de Cinema
Data: 5 de novembro
Horário: 20h20
Local: Espaço Villa Rica, em Londrina – Rua Piauí, 211
Entrada gratuita
Texto: Laura Gonçalves, sob supervisão dos jornalistas do Núcleo de Comunicação (N.Com) da Prefeitura de Londrina




