O balé vai ao shopping
Ambiente de encenação requer apuro técnico e extrema capacidade de concentração dos bailarinos. A interação direta com o público pode ser recompensadora ao artista. Festival conta com patrocínio do Promic
No final da tarde de sexta-feira (9), os frequentadores do Royal Plaza Shopping serão brindados com uma apresentação de balé clássico de primeira linha, da Escola Municipal de Dança. É a chance de acompanhar, gratuitamente, alguns dos mais célebres solos de repertório da história: “A Morte do Cisne”, “Giselle”, “Corsário”, “Diana e Acteon”, “Raymonda”, “O Pássaro Azul”, “Paquita”, dentre outros. A encenação é parte da programação do 12º Festival de Dança de Londrina e acontece às 18 horas, no espaço de eventos do shopping.
Mas engana-se quem pensa que um espetáculo do balé fica mais “fácil” para os artistas quando deixa o espaço formal dos teatros para encontrar a descontração do público em lugares abertos. “Pode ser que ninguém assista ou que o espectador até pare para ver, mas converse sem parar. Tem gente usando telefone, tem gente dando risada. O bailarino precisa estar psicologicamente preparado para qualquer tipo de situação”, explica a coordenadora da Escola Municipal de Dança, Sônia Secco.
Na passagem de um teatro para um shopping, a mudança do espaço cênico é outro desafio. Usualmente os bailarinos ensaiam e se apresentam em palcos convencionais, em estilo italiano, ou seja, com uma rotunda ao fundo e coxias nas laterais, tendo uma única face de interação com o espectador. Isso facilita a entrada e saída dos artistas de cena, além de permitir ao dançarino estabelecer um foco fixo de referência, sem perder-se durante um giro.
Já em praças, ruas ou shoppings, o público está disperso, observando a atração sob múltiplos ângulos. É preciso domínio da técnica e grande poder de concentração para manter os movimentos no alinhamento necessário e ainda abstrair a atenção das interferências acústicas. “O bailarino deve ter o ouvido apurado para acompanhar a contagem dos passos, para não perder o ritmo. No palco italiano você não escuta o que a plateia diz, no shopping se escuta tudo”, salienta Secco.
Ouvem-se ruídos incômodos, mas a reação extasiada da audiência também é mais perceptível, o bailarino é capaz de flagrar sorrisos ou a respiração suspensa no momento de um salto. A iluminação natural, sem escuridão na plateia e destituída dos refletores de palco, permite que o espetáculo se dê totalmente às claras, para o intérprete e para o espectador. “Errou, errou. Acertou, acertou. A arte é em tempo real, tudo está visível, ali pertinho”, descreve Sônia Secco. Uma “transparência” que começa antes mesmo do espetáculo.
Sem coxias, os bastidores estão aos olhos do espectador. A troca de roupas se passa no banheiro coletivo, a maquiagem às vezes é concluída no chão, em espelhos de tamanho reduzido. Para quem passa, é a chance de ter um rápido vislumbre das prévias de um espetáculo. Para quem para e acompanha o balé, é a oportunidade de ver de perto o que normalmente só é possível mirar ao longe. Para os dançarinos, uma prova de fogo nos quesitos de técnica, foco e paixão. “Em ambientes abertos, há o aplauso, há a expectativa, a adrenalina nas alturas. Esse é o retorno, o feedback esperado. O bailarino não dança para si, ele precisa de plateia: essa é a nossa gasolina”, sintetiza Secco.
Primeiros passos, grandes ambições
Para montar a tarde de Clássicos no Royal, a Escola Municipal de Dança de Londrina realizou uma rigorosa audição interna, selecionando não apenas os bailarinos mais competentes, mas também os performers com os biotipos mais adequados a cada papel. “A Morte do Cisne”, por exemplo, requer bailarinas longilíneas, de braços, pernas e pescoços compridos, para garantir a amplitude dos movimentos coreográficos. Em “O Pássaro Azul”, o intérprete deve ter a mesma agilidade do animal que representa, por isso a necessidade de um corpo bem leve. Já “Raymonda” demanda um profissional de grande força muscular, pelo elevado número de movimentos em ponta.
O elevado grau de exigência dos professores tornou a Escola Municipal referência na dança no país. Nos últimos três anos, quatro de seus estudantes foram selecionados pelo Bolshoi Brasil, uma das instituições de dança de maior prestígio em todo mundo. Atualmente, 300 estudantes estão matriculados no curso regular de Balé Clássico da Escola Municipal, cuja duração é de oito anos. Cerca de 80% do núcleo estudantil atendido é composto por bolsistas, o que torna o projeto um dos maiores promotores de inserção social por meio da arte no Brasil. “Em 20 anos de atuação, estamos permitindo que um grande número de crianças e adolescentes saiam da marginalização econômica para ganharem uma profissão, uma carreira, um motivo de empenho, além de valorização pessoal e social”, afirma a coordenadora da Escola, Sônia Secco.
Para descobrir novos talentos da dança, os professores realizam triagens anuais entre os interessados inscritos. Eles também fazem as vezes de “olheiros” em um projeto paralelo intitulado “Dança nas Escolas”, que percorre os colégios públicos oferecendo atividades mais rápidas de formação e selecionando alunos com potencial para a dança. A escola é mantida por recursos do poder público municipal.
O Festival de Dança de Londrina como o palco de estreia
Para muitos estudantes, o Festival de Dança é o primeiro contato com o grande público, momento inaugural de uma relação de cortejo e conquista do público, que tende perdurar por toda a carreira do bailarino. Mesmo sem ser uma mostra competitiva, o Festival expõe os jovens dançarinos a uma avaliação coletiva e eles terão de lidar com a crítica especializada ou mesmo leiga, um passo importante para uma futura profissionalização na área.
O Festival também propicia o encontro entre a Escola de Dança e a população londrinense, estreitando laços e evidenciando a importância dos cursos de formação. “Londrina é nossa sede, nossa cidade-berço. A cidade precisa ver onde está investindo. É importante que se mostre que o dinheiro investido vai para um fim útil”, defende Sônia Secco.
O Festival de Dança de Londrina é uma realização da APD (Associação dos Profissionais de Dança de Londrina e Região Norte do Paraná). Apoio institucional: Funcart. Patrocínio: Programa Municipal de Incentivo à Cultura (PROMIC) e Royal Plaza Shopping. Apoio: Loja Shop Ballet; Só Dança; Pastel Mel; Rádio UEL; Produtora MK; Usina Cultural; Midiograf e Bar Valentino.
Clássicos no Royal
Escola Municipal de Dança de Londrina / Funcart
(Londrina – PR)
Dia: 10 de outubro (sexta-feira)
Horário: 18 horas
Local: Royal Plaza Shopping
Duração: 40 minutos
Classificação indicativa: Livre
GRATUITO
Ficha técnica:
Giselle: Ione Queiróz
A Morte do Cisne: Thacyane Vargas e Giovanna Aversani
Médora – Corsário: Thaísa Morais
Diane e Action: Amanda Gomes
Raymonda (solo feminino): Isabelly Melendes
O Pássaro Azul: Mª Victória Araújo
Paquita (solos): Kharime Dakkache e Sabrina dos Santos
Paquita (pas de deux): Bruna Camila, Matheus Nemoto
Fotos: Bruno Miranda/Divulgação




