Projeto de inclusão apoia alunos com deficiência e neurodivergências na rede municipal
Iniciativa da Prefeitura de Londrina e HUTEC atende, com acompanhamento especializado, 250 estudantes em sete escolas municipais
Para oferecer inclusão, acolhimento e promover o desenvolvimento das crianças com deficiência ou neurodivergentes que estão matriculadas na rede municipal, a Prefeitura de Londrina lançou este ano o projeto Pró-REDE – Programa de Resposta Estratégica à Neurodiversidade na Educação. Com essa iniciativa, executada em parceria com a Fundação de Apoio ao Desenvolvimento Tecnológico do Hospital da Universidade Estadual de Londrina (HUTEC), desde o primeiro dia de aula de 2026 cerca de 250 alunos passaram a ter um Profissional Especializado de Suporte (PES) para acompanhá-los no ambiente escolar. Esse profissional não substitui o professor da turma, mas vem para complementar, atendendo às necessidades individuais do aluno.
Nessa primeira etapa, o Pró-REDE foi implementado em sete escolas municipais – Norman Prochet, Professor Joaquim Pereira Mendes, Miguel Bespalhok, Carlos Kraemer, América Sabino Coimbra, Ignez Corso Andreazza e Professor Moacyr Teixeira. Atualmente, a rede municipal conta com 4.356 alunos atendidos pela Educação Especial, em um universo de quase 47 mil, no total. E com base em critérios e análises técnicas, foram selecionados 250 alunos para participarem do projeto-piloto.

Uma dessas crianças é a aluna Lívia Machado Simões, de cinco anos, matriculada no 1° ano da Escola Municipal Ignez Corso Andreazza, na zona norte da cidade. Diagnosticada com autismo há quase um ano e meio, Lívia está contente em ter uma pessoa para auxiliá-la enquanto permanece na escola. Sua mãe, a secretária executiva Fabiana Antunes Machado, explicou que a pequena tem dificuldades para se comunicar, mas o profissional de apoio está cumprindo um papel muito importante. “A diferença com esse suporte é que ao chegar na escola a Lívia já tem um profissional de apoio esperando por ela; antes desse projeto ela não tinha um professor de apoio fixo”, comentou.
Nessa escola, que tem 844 alunos matriculados, atuam oito PES, pela manhã e tarde, para atender 16 estudantes. A diretora Roseli Grana contou que a adaptação desses profissionais tem sido bastante satisfatória e tranquila. “Desde a chegada deles, organizamos a integração de forma planejada, apresentando-os à equipe pedagógica, aos alunos e às famílias, para que todos compreendessem seu papel dentro da rotina escolar. Os profissionais passaram a integrar o cotidiano das turmas de maneira natural, respeitando a dinâmica da sala e atuando de forma colaborativa com os professores regentes”, destacou.

Ela acrescentou que as famílias dessas 16 crianças também relatam mais tranquilidade e confiança, ao perceberem o acompanhamento mais próximo e direcionado às necessidades específicas de seus filhos. “De modo geral, o funcionamento está organizado, alinhado com a proposta pedagógica da escola e atendendo às expectativas tanto da equipe quanto dos responsáveis”, citou.
Essa presença e cuidado durante o período em que o aluno está na escola, seja dentro ou fora da sala de aula, traz vários benefícios, contou a diretora. Entre eles, o acompanhamento individualizado, respeitando as necessidades específicas de cada criança, e o auxílio na organização da rotina, na compreensão das atividades e na execução das tarefas. “Contribui para a regulação emocional, prevenindo crises e reduzindo situações de sobrecarga, favorece o desenvolvimento da autonomia gradativa, amplia as possibilidades de interação social e participação nas atividades da turma. Além disso, garante maior segurança e acolhimento dentro do ambiente escolar”, complementou.

Outra unidade contemplada na fase piloto do projeto é a Escola Municipal Professor Joaquim Pereira Mendes, que fica na Gleba Fazenda Palhano, região sul. Lá, o aluno Pedro Albino Jaffra, do 4º ano, passou a ter um profissional de suporte já que está no Espectro Autista. A administradora de Airbnb e mãe desse aluno, Lilian Kelly Jaffra Rezende Campos, contou que a família veio da França para Londrina há três anos, e na época Pedro tinha muita dificuldade em falar e socializar, além de uma seletividade alimentar severa.
“Ele não comia nada na escola, a não ser as coisas específicas dentro da sua seletividade. Pedro se desregulava constantemente e tinha uma grande defasagem na alfabetização e no aprendizado. Não ficava em sala e não aceitava comandos. Por isso o trabalho, feito primeiro por todos da equipe pedagógica da escola Joaquim Pereira Mendes, que nos recebeu, foi tão importante para o desenvolvimento social e escolar do Pedro. O que recebemos aqui na escola, não tivemos na Europa: amor e apoio, para nós dois”, observou a mãe.
Desde que o projeto-piloto iniciou, Lilian contou que se sente ainda mais tranquila, pois sabe que Pedro está recebendo os cuidados e a atenção necessária. A professora de apoio, disponível nos anos anteriores, também contribuiu para o desenvolvimento, mas ter alguém exclusivo faz esse processo ser otimizado. “Pedro me surpreendeu a mostrar entusiasmo e conexão com o profissional de suporte Anderson, que também se mostrou muito atencioso com ele. Consigo ver um ano iniciando mais tranquilo e calmo, com Pedro aceitando e entendendo melhor os comandos básicos do dia a dia escolar. Esse projeto-piloto tem sido benção nas nossas vidas; fica meu agradecimento por olharem por nossas crianças atípicas e nos ajudarem com esse grande apoio na escola”, concluiu.
Na escola Professor Joaquim Pereira Mendes, foram direcionados 20 PES, tanto para a manhã como para a tarde. São 553 alunos matriculados, e desse total 95 possuem laudos específicos, para acompanhamento da Educação Especial. Segundo a diretora dessa unidade, Valdirene Maria de Oliveira Guiraldelli, os profissionais estão vinculados ao atendimento direto desses estudantes, buscando desenvolver estratégias de intervenção relacionadas ao comportamento e à participação no ambiente escolar como um todo. “Na escola, esse trabalho tem acontecido, na maioria dos casos, de maneira tranquila. Alguns alunos ainda necessitam de mais tempo e de estratégias específicas para suas adaptações comportamentais e pedagógicas. A presença do psicólogo na escola tem contribuído significativamente, somando-se às diversas estratégias de manejo e auxiliando na regulação do comportamento de algumas crianças. Sabemos que isso é um começo e que a inclusão é um desafio diário. Reconhecemos que cada criança é única, mas acreditamos que, juntos, conseguiremos desenvolver estratégias assertivas para a realização de um trabalho de qualidade”, detalhou.

Como funciona – Cada PES acompanha uma ou, no máximo, duas crianças, conforme o nível de autonomia do estudante. Essa assistência é ofertada durante todo o período em que o aluno permanece na escola, da entrada até a saída, seja na sala de aula ou nos demais espaços e atividades ofertados no turno escolar.
A contratação dos Profissionais Especializados de Suporte foi conduzida pela HUTEC, por meio de processo seletivo. A maioria deles estuda ou já se formou em Pedagogia, mas também há profissionais de outras áreas, como Psicologia, Fisioterapia, Educação Física, entre outas. O projeto engloba, ainda, profissionais supervisores, com experiência e formação em Psicologia. E antes do ano letivo começar, todos passaram por capacitações teóricas que abordaram temas essenciais, como fundamentos legais e éticos, regulação emocional, estratégias de intervenção, avaliação de comportamento e registro de dados, além de alinhamento junto à Secretaria Municipal de Educação.

E as formações e atualizações terão continuidade no decorrer do Pró-REDE, destacou o psicólogo pós-doutor na área de Análise do Comportamento e consultor da HUTEC, Guilherme Bracarense Filgueiras. “Eles recebem, semanalmente, algumas cartilhas e orientações que a gente prepara para aprimorar a formação deles. Na formação inicial, foram 80 horas de curso e ao longo do ano, nos outros horários, a gente prevê mais 80 horas de formação continuada. Além disso, pelo menos uma hora por semana, o supervisor monitora e orienta o trabalho desse profissional. Ao longo das 50 semanas do ano, aproximadamente, eles vão ter pelo menos uma hora semanal de supervisão, totalizando mais de 200 horas de formação. E a gente está pensando em preparar alguns cursos e ofertar para a rede municipal, para os professores, para eles irem cada vez mais entendendo como é a atuação desses profissionais de apoio”, citou.

Filgueiras explicou que, nessa fase inicial, atuam 90 profissionais de apoio e, para cada 10 profissionais de apoio, um psicólogo. O projeto ainda prevê a realização de, aproximadamente, mil avaliações de diagnóstico, ainda este ano. “Até o momento, a gente teve retorno positivo dos profissionais, eles gostaram muito do modelo das aulas que a gente preparou. Muitos que têm algumas pós-graduações, por exemplo, falaram que nunca viram aqueles elementos, aqueles itens do curso, em nenhuma pós que tinham feito. A gente fica muito feliz com isso, porque o currículo foi desenvolvido, justamente, para que abordasse as partes mais práticas desses profissionais. Já recebemos muitos feedbacks, também, de diretores e da equipe de gestão das escolas, muito positivos, em geral. Sempre com algumas sugestões, que a gente vai acolhendo, negociando e adaptando. Mas, no geral, a percepção é muito positiva desses profissionais que estão nas escolas. Alguns familiares também, conversando com os supervisores e com os profissionais, estão muito felizes. A gente tem feedbacks, por exemplo, de familiares dizendo que nunca viram o começo de ano tão tranquilo da criança, de ter uma referência lá na escola de alguém que está sempre do lado daquela criança”, disse.
Para a secretária municipal de Educação, Thatiane Lopes de Araújo, o trabalho nas unidades têm tido resultados muito positivos, o que demonstra a importância de ampliar o suporte especializado dentro das escolas. “A Secretaria Municipal de Educação está acompanhando de perto a implementação, estudando possibilidades de ampliação e também realizando adequações conforme surgem novas demandas, como, por exemplo, o atendimento a alunos que são transferidos para essas unidades ao longo do ano. O Município de Londrina tem um compromisso claro com a inclusão. Estamos trabalhando para construir uma rede cada vez mais preparada para acolher as diferenças, garantindo que nossas escolas sejam espaços de aprendizagem, respeito e desenvolvimento para todos”, finalizou.




