Agricultoras de Londrina têm programação especial no Mês da Mulher
Protagonismo feminino na gestão da agricultura e nas relações familiares foram o tema de palestra e bate-papo musical no distrito de Lerroville
A manhã da última terça-feira (24) foi especial para um grupo de cerca de 20 mulheres do Assentamento Fazenda Alto Alegre, no distrito de Lerroville, zona sul da cidade de Londrina. Elas foram convidadas pelo Instituto de Desenvolvimento Rural (IDR) para uma palestra e um bate-papo musical que integraram a programação do Mês da Mulher, promovida pela Secretaria Municipal de Políticas para as Mulheres (SMPM).
A palestra “Protagonismo da mulher rural” foi ministrada pela psicóloga da Secretaria, Lisnéia Aparecida Rampazzo, que é mestre em Serviço Social e Política Social pela Universidade Estadual de Londrina. Ela falou sobre a necessidade de valorização do papel da mulher na agricultura familiar, a partir do reconhecimento dos direitos pelas próprias produtoras do campo. “A palestra teve o intuito de trabalhar a questão do protagonismo da mulher rural, o quanto é importante assumir o poder de escolha, seja na gestão da agricultura, seja no âmbito familiar”, explicou. Ela faz uma analogia da vida com os roteiros de novelas bastante conhecidas da televisão. “Diferente da coadjuvante ou figurante de uma novela, a protagonista tem um papel primordial. E como construir esse papel? A partir do autoconhecimento, do autocuidado, conhecer os seus direitos”, comparou.

A programação teve ainda a participação especial de um grupo feminino que está pesquisando a atuação das mulheres na formação do repertório musical caipira, tão presente no imaginário social da região norte paranaense. O projeto é realizado com financiamento do Programa Municipal de Incentivo à Cultura da Prefeitura de Londrina (Promic) e está na fase inicial de formação, que irá resultar em um espetáculo, mas já proporcionou muitas trocas na vivência ocorrida nesta semana, conforme relatou a coordenadora do projeto, a jornalista, escritora, atriz e cantora Nilma Raquel. Com 30 anos de experiência profissional, ela pesquisa música caipira desde a faculdade. No projeto, ela e o grupo formado exclusivamente por mulheres propõem uma reflexão sobre o papel da mulher, a partir das músicas e dos bastidores da indústria cultural.
“Para nós, foi um privilégio e uma honra a gente ter contato com estas mulheres, no primeiro evento do nosso projeto. O retorno delas foi maravilhoso, elas sabiam cantar todas as músicas. E aí pudemos trocar reflexões muito importantes a respeito da condição feminina”, contou a artista.
Como exemplos do diálogo ocorrido, ela citou a canção “Chalana”, que teve um primeiro registro na década de 1950 por um duo de mulheres negras, mas que não alcançou a mesma projeção comercial de gravações posteriores. Outra música que rendeu uma boa conversa foi o clássico composto nos anos 1940 “Cabocla Tereza”, gravada por várias duplas e que virou até filme. “Os pesquisadores que comentam sobre a música nos livros falam que é uma grande história de amor, uma história de ciúme, mas é uma música que relata um feminicídio”, ponderou Nilma Raquel.
A psicóloga que conduziu o encontro considerou o momento musical bastante enriquecedor. “A música caipira veio trazer o protagonismo dessa mulher, o quanto ela precisa ser valorizada. O grupo mostrou que as mulheres muitas vezes são retratadas de uma maneira estigmatizada. Então, aliamos a teoria e a prática para pensar o quanto precisamos nos valorizar e exercer o poder de escolha”, concluiu Rampazzo.




