Cidadão

Oficina de Teatro do Oprimido cria espaço de encontro para pessoas trans em Londrina

Atividade gratuita é na Alma Vila Cultural e propõe espaço de escuta, acolhimento e criação coletiva por meio da arte

A Alma Vila Cultural (rua Argentina, 693) recebe neste sábado (30), das 14h às 18h, uma oficina gratuita de Teatro do Oprimido voltada exclusivamente para pessoas trans. Conduzida por Matteo Nanni, homem trans, Curinga de Teatro do Oprimido pelo Centro de Teatro do Oprimido do Rio de Janeiro (CTO-Rio) e mestrando em Artes da Cena, a atividade propõe um espaço de acolhimento, troca de experiências e fortalecimento coletivo por meio das artes cênicas.

Utilizando jogos, dinâmicas e construções coletivas, a oficina busca aproximar pessoas trans da cidade em um ambiente seguro de escuta e convivência. A atividade é aberta tanto para quem já possui experiência com teatro quanto para quem deseja ter um primeiro contato com as artes cênicas.

A proposta integra a pesquisa de mestrado desenvolvida por Matteo Nanni, que vem realizando encontros semelhantes em diferentes cidades para ampliar a investigação sobre o Teatro do Oprimido junto à população trans. “A ideia de desenvolver essa pesquisa partiu da minha própria vivência como homem trans. Mesmo tendo formação em teatro e uma trajetória artística desde os 12 anos, eu não me sentia mais pertencente aos espaços teatrais tradicionais. Foi no Teatro do Oprimido que reencontrei meu lugar no teatro e percebi a potência dessa prática para outras pessoas trans”, relatou.

Foto: Divulgação

Segundo ele, a oficina busca construir um espaço seguro para que os participantes possam compartilhar experiências, criar coletivamente e também se reconhecer como produtores de conhecimento e artistas. “Quero que as pessoas possam se reconhecer como artistas, produtoras de conhecimento e protagonistas das próprias histórias. A arte nos permite imaginar outras possibilidades de existência e criar novas formas de viver no mundo”, destacou Matteo.

Dentro da metodologia do Teatro do Oprimido, Matteo atua como “Curinga”, figura responsável por conduzir e facilitar os processos coletivos durante as atividades. Segundo ele, sua trajetória dentro da prática também surgiu da ausência de referências trans nesse espaço. “Eu não conhecia outros Curingas trans e, na minha cidade, Maringá, também não havia profissionais trans que pudessem me orientar nesse caminho. Foi essa ausência que me impulsionou a me tornar Curinga”, afirmou.

Construção compartilhada – O pesquisador explicou que sua atuação durante a oficina busca justamente incentivar o diálogo e a construção coletiva das reflexões do grupo. “Não trago respostas prontas. Busco apoiar o grupo na construção das próprias reflexões, ampliando a presença de corpos trans nas práticas do Teatro do Oprimido”, explicou Nanni.

Matteo também destacou que a arte ocupa um papel importante na construção de espaços de escuta e resistência para a população trans. “Muitas vezes vivemos em uma sociedade que constantemente tenta limitar quem somos ou quem podemos ser. A arte surge como um espaço onde é possível imaginar outras possibilidades de existência; às vezes, uma imagem, um gesto ou uma cena conseguem comunicar algo de forma muito mais profunda do que uma conversa conseguiria”, completou.

Foto: Divulgação

Realizada em Londrina com apoio da Frente Trans, a oficina também surge da necessidade de fortalecer vínculos entre pessoas trans da cidade em espaços que vão além das discussões políticas e da luta por direitos. A articulação local do projeto foi feita por Anire Niara, publicitária e integrante da Frente Trans de Londrina, responsável por conectar a proposta de Matteo às instituições culturais da cidade para viabilizar a realização da atividade. “A gente percebeu que muitas pessoas trans se sentem muito sozinhas, então precisamos criar oportunidades para que essas pessoas se encontrem, se conheçam e troquem entre si”, contou Anire.

Anire explicou que a proposta também dialoga diretamente com o tema da Marcha Trans realizada neste ano em Londrina, que teve como eixo o “bem viver”. “Bem viver para nós significa poder experienciar a vida para além da sobrevivência. É poder criar com a própria experiência, fazer arte, conhecer outras pessoas e compartilhar momentos”, destacou Niara.

Inicialmente prevista para ocorrer na Funcart, a atividade teve o local alterado para a Alma Vila Cultural. Segundo a organização, a mudança reforça a relação da proposta com os espaços culturais da cidade. “Para nós, ocupar um espaço cultural faz muito sentido porque acreditamos que a cultura é uma forma de nos conectarmos com quem somos. Pessoas trans também encontram na arte um espaço de reconhecimento e expressão para o mundo”, concluiu Anire.

A oficina é gratuita, exclusiva para pessoas trans e aberta para participantes com ou sem experiência prévia em teatro. A Vila Cultural Alma Brasil tem patrocínio da Secretaria Municipal de Cultura de Londrina (SMC) pelo Programa Municipal de Incentivo à Cultura (Promic). 

Texto: Laura Gonçalves, sob supervisão dos jornalistas do Núcleo de Comunicação (N.Com) da Prefeitura de Londrina 

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