FILO 2026: Por uma arte teatral mais acessível e empática
Festival Internacional de Londrina reforça as práticas de acessibilidade com visita tátil, interpretação de LIBRAS e facilidades para neurodivergentes
Como forma de reconhecer e valorizar o direito da pessoa com deficiência em ter acesso à arte e cultura, o Festival Internacional de Londrina – FILO 2026 mais uma vez disponibilizou uma série de ações voltadas à acessibilidade. Além de disponibilizar intérpretes de LIBRAS, legendas em tempo real e audiodescrição, o festival também ofertou o agendamento de visitas sensoriais, em teatros e cenários, para grupos e pessoas com deficiência interessadas.
Aos 67 anos, o deficiente visual Marcos Santos participou pela primeira vez de uma visita tátil. O encontro foi realizado no Espaço Villa Rica com integrantes do grupo Giramundo, de Belo Horizonte (MG), que apresentou nos dias 22 e 23 de junho o elogiado espetáculo “Orixás” na programação do Festival Internacional de Londrina – FILO 2026, realizado de 12 a 28 de junho.
Acompanhado pela monitora de acessibilidade Isabela Grigio, Santos se encantou com os bonecos articulados que dão vida a diversos orixás na montagem, enquanto ouvia atentamente as explicações da produtora do grupo, Beatriz Apocalypse, sobre os bonecos e seus significados simbólicos dentro da mitologia africana.
Com mãos atentas e delicadas, pôde tocar os bonecos, sentir a textura e o cheiro dos materiais utilizados na confecção dos objetos, e até mesmo interagir com alguns bonecos manipulados por manivelas.
No palco, Santos também percebeu pelo tato o balcão – localizado no centro do palco, por onde os atores-manipuladores interagem com os bonecos – e as roupas que utilizam para não serem vistos pela plateia, sempre na cor preta, da cabeça aos pés, conforme explicaram.
No final, satisfeito com a experiência, Santos estava animado para acompanhar a apresentação, em seguida, como espectador. “Foi muito legal a visita tátil; ela ajuda a compreender melhor a peça. Precisamos de mais iniciativas assim que, infelizmente, não são comuns no Brasil”, ressaltou.
“Estou mais acostumado a ir ao teatro para assistir a apresentações de música clássica e, por ser curioso, às vezes tomo a iniciativa de pedir aos músicos que me expliquem sobre os instrumentos. Pela primeira vez, participei de uma atividade cultural que levou em consideração a minha deficiência visual”, concluiu.

Acessibilidade integrada – O espetáculo “Circo de Los Pies”, da La Luna Cia. de Teatro, de Canelinha (SC), apresentado nos dias 15 e 16 de junho, na Divisão de Artes Cênicas – DAC/UEL, também contou com visita tátil, além da própria dramaturgia trabalhar na prática os conceitos de acessibilidade integrada. No espetáculo solo o corpo da atriz Emeli Barossi, que possui uma deficiência nas pernas, é protagonista e autor do próprio discurso, com técnicas de palhaçaria e teatro de animação.
Logo na entrada do espetáculo o público preferencial (PCDs, neurodivergentes, com mobilidade reduzida) recebeu orientações para tornar a experiência no teatro mais agradável e acessível. Pessoas com neurodivergência, por exemplo, puderam sair e retornar à sala quando necessário.
No palco, o público pôde conferir a emocionante encenação da palhaça Asmeline, vivida pela atriz Emeli Barossi, que contracenou com o intérprete de LIBRAS Lucas Grigio. Proprietário da Visual LIBRAS, empresa parceira do festival, pela primeira vez ele participou desta forma de um espetáculo. A montagem também contou com audiodescrição realizada por Pedro Torres, assessor de direção da companhia.
“Todo o espetáculo foi pensado em trabalhar a acessibilidade de forma integrada para que o público, de forma geral, vivesse essa experiência que deve estar cada vez mais integrada em todos os espaços”, afirmou Torres. “Aliás, toda a dramaturgia foi escrita com a participação de dois autores com deficiência visual e com assessoria de acessibilidade”, complementou.
Lucas Grigio ficou animado com a experiência de contracenar enquanto fazia a interpretação de LIBRAS. “Estava um pouco nervoso, talvez por ter a minha família assistindo e uma grande comunidade surda aqui, mas foi muito bom”, garantiu.

Entusiasta da inclusão cultural, Grigio reconheceu que a comunidade surda da cidade está participando mais ativamente das ações culturais nos últimos anos. “É um processo que começamos a incentivar há uns nove anos, quando abrimos a empresa de inclusão e acessibilidade, e torcemos para que em breve também esta comunidade esteja apresentando seus espetáculos no Festival”, almejou Grigio.
O intérprete também, gentilmente, fez a mediação desta entrevista com dois irmãos surdos que assistiram ao espetáculo. Como repórter, assumi o compromisso de aprender LIBRAS para interagir melhor na próxima vez.
Saulo Tedeschi Kyosen, 12 anos, contou que ficou muito emocionado com a peça. “Ela fala muito sobre empatia e seria muito bom termos mais eventos desse porte na cidade, durante o ano todo, pois eles geram muita diversão e aprendizado”, destacou.
O seu irmão, Frederico Tedeschi Kyosen, de 13 anos, também elogiou a apresentação. “O espetáculo é muito visual e fui surpreendido pela deficiência física da atriz; a peça traz uma temática muito diferente, sobre a inclusão. Isso me emocionou muito e me senti igual”, pontuou.
Da mesma forma, a atriz Emeli Barossi ficou emocionada com o grupo de pessoas surdas que compareceu ao teatro. “Isso é emocionante! Venho de uma pequena cidade, de 12 mil habitantes, em que a maioria das pessoas surdas fica em casa e não tem acesso ao aprendizado de LIBRAS. Precisamos cada vez mais trabalhar para mudar essa realidade, até para que o próprio deficiente veja o seu potencial como artista. Ser uma `artista def’ é possível!”, ponderou.
Pelo protagonismo de artistas PCDs – Seguindo a proposta de cada vez mais contemplar espetáculos que abordem a temática da acessibilidade, o FILO 2026 também teve a apresentação de “Voz Invisível”, no dia 14 de junho, com a atriz surda Catharine Moreira, de São Paulo (SP).
Em cena, a atriz e performer Catharine Moreira apresenta a arte da comunicação para a comunidade surda e ouvintes, em uma intervenção que tem o feminismo como base e explora trajetórias e experiências femininas. Na montagem, língua portuguesa e LIBRAS compartilham o mesmo espaço poético e criativo.
Neste trabalho, os indivíduos são valorizados não apenas como surdos, mas como sujeitos bilíngues que pertencem a culturas distintas. Dessa forma, a arte surda se manifesta com protagonismo em diversas formas – como poesia, dança e narração.
O Festival Internacional de Londrina – FILO tem como prática a realização de diversas ações de acessibilidade. Nos últimos anos, tem disponibilizado a interpretação de LIBRAS na maioria dos espetáculos, além de oficinas e espetáculos voltados à temática de acessibilidade. Além disso, tem como premissa inclusão, respeito às diferenças e valorização das particularidades.
Texto: Assessoria de imprensa do FILO 2026




