Cidadão

Espetáculo resgata o protagonismo feminino na Música Caipira

Com equipe 100% feminina, o projeto "Caipira Substantivo Feminino" promove apresentações gratuitas em Londrina e propõe reflexão sobre o machismo histórico no gênero musical

A trilha sonora que embalou o amanhecer de gerações no norte do Paraná e costurou a identidade cultural da chamada “Paulistânia” ganha uma nova e necessária releitura. O projeto musical “Caipira Substantivo Feminino”, aprovado pelo Promic, o programa de incentivo da Secretaria Municipal de Cultura/Prefeitura de Londrina, nasce com a proposta de mergulhar no universo da música caipira de raiz, mas sob um olhar inédito, através do resgate e a exaltação do legado das mulheres. A pré-estreia acontece no próximo dia 26, no Bar Valentino, a partir das 20h.

Historicamente sub-representadas em um gênero tradicionalmente dominado por figuras masculinas, as mulheres agora assumem o centro do palco e dos bastidores, já que o espetáculo é concebido e executado em sua totalidade por uma equipe feminina. A iniciativa busca provocar o espírito crítico do público e celebrar um patrimônio imaterial tão caro à memória afetiva dos brasileiros.

“Nosso espetáculo é, antes de tudo, um grande resgate do prazer que é ouvir música caipira. Junto a isso, queremos manter viva a memória de mulheres importantes do cenário musical caipira e fazer refletir, de forma leve e ao som de sucessos inesquecíveis, sobre a naturalização do pensamento machista em algumas letras do gênero”, afirma a atriz e cantora Nilma Raquel, uma das idealizadoras do espetáculo e proponente do projeto.

A montagem começou a surgir em encontros entre Nilma e outras duas amigas da música, a cantora, violeira e cavaquinista Mariana Sella e a cantora Diene Eire de Mello. Quando elas descobriram o gosto em comum pelos clássicos da música caipira começaram a idealizar um show, e a exaltação às figuras femininas do cancioneiro caipira surgiu como mote para a elaboração do projeto e da proposta posteriormente submetida ao Promic. Diene e Mariana tinham vivência familiar com a música e a jornalista Nilma estudou academicamente o gênero no TCC da faculdade e em sua pós-graduação em Jornalismo Cultural pela PUC de São Paulo, o que garantiu o embasamento teórico do projeto.

Vozes Abafadas pelo Tempo

Mais do que um concerto, o espetáculo costura clássicos dos anos 1940 a 1970 com depoimentos reais de mulheres que vivenciaram o auge desse período apresentados de forma poética, mas não menos impactante. A ideia de ouvir testemunhos de idosas surgiu com o objetivo de fazer um paralelo entre a vida real e a vida idealizada pelo enredo das canções. As cantoras ouviram familiares, moradoras de um lar de idosos de Londrina e ainda se basearam no depoimento de uma das estrelas retratadas do espetáculo, a violeira mato-grossense Helena Meirelles. “O roteiro utiliza essas memórias para ilustrar como certas canções marcaram suas histórias, ao mesmo tempo em que expõe as barreiras invisíveis enfrentadas por grandes artistas do passado”, explica Nilma Raquel. Pesquisas históricas apontam que muitas cantoras talentosas abandonavam os palcos quando se casavam, por exigência de maridos que toleravam a fama apenas até o matrimônio. Ao trazer à tona a trajetória de pioneiras como as Irmãs Galvão, Inhana (da dupla com Cascatinha), a compositora Zica Bergami e a icônica Inezita Barroso, cujo centenário foi celebrado em 2025, “o projeto reescreve simbolicamente essa narrativa, garantindo o devido lugar de destaque na história da música brasileira a essas e outras grandes artistas”, como afirma a cantora.

A artista mais recente homenageada no espetáculo é Roberta Miranda, autora de “Majestade, o Sabiá”. Roberta, cujo sucesso veio depois de muita resistência para que ela pudesse gravar canções de sua própria autoria, é um símbolo da força da mulher no cenário predominantemente masculino da música sertaneja. “Mesmo que o gênero hoje esteja muitíssimo distante da música caipira de raiz, as atuais cantoras finalmente conseguiram conquistar seu espaço de forma mais consistente a partir da luta das que vieram antes”, comenta Nilma.

Foto: Divulgação

Estética sem caricaturas

Um dos grandes diferenciais da proposta é o cuidado em evitar a caricaturização do universo rural, um vício ainda persistente em diversos produtos culturais que abordam o tema. Sem perder a leveza, a beleza e o bom humor inerentes à cultura caipira, o espetáculo adota uma postura corajosa ao propor o debate sobre a naturalização do pensamento machista em composições consagradas pelo público. É o caso de clássicos como “Cabocla Tereza”, cujo enredo relata explicitamente um caso de feminicídio.

Com um cenário e figurinos simples desenhados pela diretora artística Carol Ribeiro, a produção foca no despojamento cênico para valorizar a força da palavra falada e cantada, permitindo que a mensagem social e a qualidade artística sobressaiam de forma orgânica. O figurino também foi confeccionado por mulheres e, como detalhe, traz um cinto tecido por artesãs do projeto Maisha Social, que comercializa trabalhos manuais feitos por mulheres na Cadeia Pública de Londrina.

Descentralização e Afeto no Interior

A democratização do acesso à cultura é outro pilar fundamental do projeto, que prevê uma circulação totalmente gratuita por diferentes pontos da região. O público-alvo prioritário das primeiras apresentações são os frequentadores dos Centros de Convivência do Idoso (CCI) da Prefeitura de Londrina, promovendo o lazer e o reencontro com a própria juventude daqueles que cresceram ouvindo essas modas no rádio.

Além da pré-estreia no próximo domingo (26) no Bar Valentino, o Caipira Substantivo Feminino tem agenda no CCI Leste (24/08), no CCI Oeste (21/09) e no CCI Norte (19/10). No dia 30 de agosto o grupo mostra a parte musical do espetáculo e mais alguns sucessos caipiras em uma apresentação especial na Parada do Limoeiro, a partir das 11 horas. O público geral terá a chance de assistir ao espetáculo completo no dia 21 de novembro no Sesc Cadeião. O cronograma das apresentações pode ser acompanhado pelo perfil do projeto na rede social Instagram: @caipirafeminino.

Além de circular pelas zonas urbana e periférica, o espetáculo estende seus braços até a área rural, integrando as comemorações do aniversário da cidade. A comunidade do Distrito de Lerrovile recebe o espetáculo no dia 5 de dezembro. Ao unir profissionais da cultura de diversas idades no mesmo projeto, a iniciativa não apenas fomenta a economia criativa local, mas consolida uma rede de apoio mútuo onde a arte serve como ferramenta de transformação social e igualdade de gênero.

A formação de uma equipe 100% feminina foi uma prioridade, mas não houve qualquer dificuldade para encontrar as profissionais mais competentes para ocupar cada um dos postos do time. Além de Nilma, Diene e Mariana, que trazem na bagagem a experiência em diversos espetáculos de teatro e música locais, estarão no palco a jovem bandolinista Luiza Bolzani, de apenas 18 anos, e a violinista Priscila Grossi, com vasto histórico de participação em outros grupos musicais da cidade. A produção está a cargo da experiente cantora e produtora Silvia Borba e o roteiro foi escrito por Raquel Sant’Anna, conhecida atriz e dramaturga de Londrina, hoje radicada em São Paulo. A musicista e professora Bethânia Paranzini assina os arranjos originais das 15 canções do espetáculo, bem como a direção musical. A direção artística e figurinos ficaram a cargo da diretora e professora universitária Carol Ribeiro.

Mulheres inspiradoras

As mulheres que inspiram o espetáculo “Caipira Substantivo Feminino” não foram apenas intérpretes; elas foram desbravadoras de um território artístico que tentava silenciá-las. Conhecer a fundo a trajetória dessas artistas ajuda a compreender a dimensão do resgate proposto pelo projeto.

O maior pilar dessa história é Inezita Barroso. Muito além do clássico “Marvada Pinga”, Inezita foi uma das maiores folcloristas, pesquisadoras e instrumentistas do Brasil. À frente do programa Viola, Minha Viola por 35 anos, ela abriu as portas para que a cultura caipira fosse respeitada.

Outra grande referência de destaque é Inhana, que ao lado de seu marido formou a célebre dupla Cascatinha e Inhana. Ela foi responsável por imortalizar canções fundamentais da nossa identidade sentimental, como “Índia” e “Meu Primeiro Amor”. Inhana foi uma pioneira ao introduzir a rica influência dos ritmos latinos e da música paraguaia (como a guarânia) no universo caipira, mostrando uma versatilidade técnica rara que consolidou a dupla como uma das mais bem-sucedidas comercialmente na história do país.

O espetáculo também faz uma homenagem especial a Helena Meirelles, que conseguiu com muito brio se libertar das amarras do silêncio e dos preconceitos de uma era que não permitia a mulheres o domínio das cordas. Nascida no coração do Pantanal, ela guardou em seus dedos a memória de um Brasil profundo, transformando a viola em uma extensão de sua própria alma. Uma lenda que provou ser possível, com coragem e ritmo, transformar o peso do mundo em ponteio de viola.

Por fim, a vivacidade das Irmãs Galvão (Mary e Marilene) que serve como exemplo vivo de resiliência. Elas formaram a dupla sertaneja com mais tempo de atividade no país, atravessando mais de sete décadas de carreira.

Serviço:
Show “Caipira Substantivo Feminino”
Projeto aprovado pelo PROMIC, o programa de incentivo da Secretaria Municipal de Cultura
Data: 26 de julho (domingo)
Horário: 20h
Local: Bar Valentino (Rua Pref. Faria Lima 486)
Ingressos antecipados na plataforma Sympla (R$ 20,00 + taxas). Na portaria no dia do evento: R$ 25,00

Texto: Janaína Ávila / Assessoria de Imprensa 

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