Agosto Dourado inicia com capacitações na rede municipal sobre aleitamento materno
Profissionais de saúde farão visitas às puérperas e formações nas UBSs para sanar dúvidas e esclarecer as principais questões que envolvem a amamentação
Com base no tema mundial “Amamentação para um começo de vida sustentável: fortalecer o que funciona!”, a Secretaria Municipal de Saúde (SMS) prepara mais uma edição da campanha Agosto Dourado, de incentivo e promoção ao aleitamento materno. Esse ano, o enfoque será na capacitação e atualização dos profissionais de saúde para que estratégias bem-sucedidas cheguem até as gestantes e puérperas acompanhadas pela rede municipal. O lançamento da campanha está programado para o dia 7 de agosto, no auditório da Prefeitura, mas algumas atividades já iniciam na próxima semana.

O leite materno é considerado padrão-ouro por ser um alimento que provê todas as necessidades nutricionais do bebê e fortalece seu sistema imunológico. Por isso, a amamentação deve ser protegida e valorizada enquanto pilar para o desenvolvimento saudável da criança e redução da mortalidade infantil. Além disso, o aleitamento materno também traz benefícios econômicos, tanto para o orçamento familiar como para os sistemas de saúde, públicos e privados, ao evitar internações e uso de fórmulas industrializadas.
E para fortalecer o aleitamento materno, a WABA (World Alliance for Breastfeeding Action) promove, todos os anos, a Semana Mundial da Amamentação. Em Londrina, a Prefeitura de Londrina aderiu à iniciativa dentro da Campanha Agosto Dourado, por meio do Comitê de Estímulo ao Aleitamento Materno de Londrina (CALMA) coordenado pela Secretaria Municipal de Saúde e composto por representantes de diferentes serviços.

Na edição 2026, as atividades da campanha iniciam nesta segunda-feira (27), com capacitações presenciais e práticas, conduzidas por 17 tutores, nas Unidades Básicas de Saúde (UBSs) Vivi Xavier, Novo Amparo, Ouro Branco, Santa Rita, Chefe Newton, Ernani Moura Lima, Jardim do Sol, Milton Gavetti, União da Vitória e Carnascialli. A primeira unidade a receber a atividade é a UBS Ernani ( rua Gerônimo Máximo, 30), a partir das 13h30.
De acordo com a enfermeira e coordenadora do Ciclo Saúde da Criança e Aleitamento Materno da SMS, Gabriela Ramos Ferreira Curan, os treinamentos serão o carro-chefe nessa edição do Agosto Dourado, com duas frentes. Uma delas é a capacitação dos médicos, dentro do ambiente de consultório. O médico é um profissional extremamente importante na chamada “warm chain” (a rede de apoio contínuo para o aleitamento), pois suas orientações são levadas com grande seriedade pelos pacientes – e são justamente desses profissionais que partem as prescrições de fórmula infantil. “Quando um médico demonstra dúvida em relação à suficiência da amamentação e desencoraja, é o suficiente para a mãe desistir e para a família imediatamente comprar uma fórmula”, citou.
A outra frente de formação será realizada com visitas domiciliares às puérperas, que são as mulheres no período do pós-parto, durante a primeira semana do recém-nascido. Nesse treinamento participam os demais profissionais, como enfermeiros, auxiliares de enfermagem, técnicos de saúde bucal e agente comunitário de saúde. “Tanto nas capacitações dentro dos consultórios das UBSs quanto nas visitas domiciliares, o aprendizado será prático: um tutor experiente atenderá tanto a puérpera quanto o recém-nascido, acompanhado por até três profissionais que irão observar e terão um tempo para discutir as particularidades de cada atendimento. Além da saúde geral do binômio mãe-bebê, a ênfase será na avaliação e no manejo da amamentação: estado emocional da mulher, rede de apoio, expectativas e dúvidas relacionadas à amamentação, assim como os tópicos mais práticos, como posicionamento para amamentar, pega do bebê na mama, padrão de sucção, avaliação da produção de leite, complementos e adereços em uso, tratamento de traumas nos mamilos, entre outros”, detalhou a coordenadora.
Segundo Curan, as principais dúvidas apresentadas pelas mães no período pós-parto em relação à amamentação envolvem a apojadura, que é a descida do leite, como lidar com o ingurgitamento mamário (acúmulo excessivo do leite materno) e como diferenciá-lo de uma possível mastite. “Essas mães também trazem dúvidas sobre pega e posicionamento, rotina e frequência, e talvez uma das campeãs seja ‘meu leite está sendo suficiente?’”, comentou.
Para a coordenadora do Ciclo Saúde da Mulher da SMS, enfermeira Priscila Colmiran, um dos principais objetivos desta capacitação é qualificar médicos, enfermeiros e técnicos de enfermagem no manejo do aleitamento materno, capacitando-os para apoiar as mães e suas famílias na orientação e no enfrentamento de possíveis complicações, como fissuras, ingurgitamento e mastite. “Ter uma equipe preparada fortalece diretamente as ações de incentivo à amamentação. Além da equipe médica e de enfermagem, os Agentes Comunitários de Saúde (ACS) também participam desse treinamento, pois atuam como o principal elo entre a comunidade e a Unidade Básica de Saúde. Por meio das visitas domiciliares, o ACS consegue identificar precocemente fatores de risco para o desmame precoce e acionar o suporte da equipe de saúde”, complementou.
Dentro da Atenção Primária, o incentivo ao aleitamento materno começa muito antes da chegada do bebê, destacou Colmiran. “Inicia ainda no pré-natal, com a avaliação das gestantes em relação a experiências anteriores de amamentação, rede de apoio, expectativas e dúvidas. Após o parto, esse acompanhamento continua de forma contínua durante as consultas de puericultura. Com um calendário específico, a puericultura monitora o crescimento, o ganho de peso, a dinâmica das mamadas, a saúde bucal e o desenvolvimento neuropsicomotor da criança”, disse.
Atualização de diretrizes – Dentro das ações programadas para a campanha Agosto Dourado 2026, está a atualização da Nota Técnica sobre a complementação de recém-nascidos a termo e saudáveis. “A complementação é quando se decide por ofertar um pouco a mais de leite para o bebê que está aprendendo a mamar. E essa complementação tem que ser muito criteriosa, porque se a gente fica oferecendo o leite nesse começo de vida, quando o bebê ainda está aprendendo a estabelecer a amamentação, ele desenvolve um fenômeno chamado confusão de bicos. Mesmo se utilizar o copinho, o bebê pode confundir o padrão oral que ele faz para receber o leite no copinho e que é totalmente diferente do padrão oral na mama”, detalhou a enfermeira e coordenadora.
Originalmente apresentada em abril de 2016, essa Nota Técnica desenvolvida pelo CALMA foi revista e, dez anos depois, será apresentada a versão atualizada enquanto diretriz para os atendimentos na rede municipal de saúde. A divulgação da nova versão vai ocorrer durante o evento para lançamento da campanha, em 7 de agosto. “A principal mudança nessa versão é a inclusão de orientações tanto para o contexto intra-hospitalar, que já existia na Nota Técnica de 2016, mas também para a realidade após a alta, ou seja, nas UBSs, nos consultórios particulares e nos ambulatórios. Estamos trabalhando para contemplar parâmetros clínicos mais atualizados de indicação de complementação, além de fortalecer a consciência dos profissionais de que uma vez introduzido um complemento, sua permanência deve ser diariamente reavaliada. Ou seja, não é porque um bebê recebeu complemento em um determinado momento que ele necessariamente precisará manter esse aporte extra indeterminadamente. Sempre que possível, o objetivo da equipe, junto com a mãe e a rede de apoio, deve ser resgatar o aleitamento materno exclusivo”, enfatizou Curan.
Outro documento importante para promoção do aleitamento materno é a Nota Técnica a respeito da frenotomia, a cirurgia para corte no frênulo, conhecimento como “freio da língua”. Esse procedimento é necessário nos casos em que o frênulo prejudica a mobilidade da língua, causando prejuízos na sucção, deglutição e fala. Nos primeiros meses de vida, esse prejuízo é notado principalmente pelas dificuldades na amamentação. “É um procedimento que precisa ter uma indicação muito precisa, e nos últimos anos a gente percebe uma banalização, um excesso de frenotomia, e isso é grave e sério”, afirmou a coordenadora do Ciclo Saúde da Criança e Aleitamento Materno da SMS.
A proposta de compilar indicações e critérios para esse procedimento cirúrgico partiu da pediatra e consultora internacional de amamentação certificada Ana Lea Clementino da Rocha Bottosso, integrante do CALMA. A médica explicou que a iniciativa surgiu diante da percepção de um aumento importante no número de bebês encaminhados para procedimentos no frênulo lingual, muitas vezes com indicações divergentes e antes de uma avaliação completa da amamentação. “Ou até mesmo, o que é pior, pelo alto número de procedimentos realizados ainda na sala de parto. O objetivo da Nota Técnica é oferecer orientação baseada nas melhores evidências disponíveis, uniformizar as condutas e reforçar que a decisão não deve se apoiar apenas na aparência do frênulo ou no resultado isolado de um teste. É necessário avaliar a mobilidade e a função da língua, observar diretamente a mamada e considerar outras causas frequentes de dificuldade para amamentar”, enfatizou.
Dentre as possíveis causas para esse aumento expressivo das cirurgias de corte no frênulo de bebês, estão a divulgação do “teste da linguinha”, maior preocupação por parte das famílias com dificuldades na amamentação e conteúdos em redes sociais relacionando os sintomas do bebê com a alteração no frênulo. “Outro fator é a ausência de critérios diagnósticos completamente uniformes. Existem diferentes protocolos de avaliação e nem sempre há concordância entre os profissionais sobre o que realmente caracteriza uma anquiloglossia funcional. Com isso, variações anatômicas normais podem ser interpretadas como doença. Também se passou a atribuir ao frênulo uma lista cada vez maior de problemas, como refluxo, cólicas, gases, sono ruim, alterações posturais, dificuldades futuras de fala e até distúrbios respiratórios. Para muitas dessas associações, porém, ainda não existem evidências científicas suficientes que justifiquem uma cirurgia preventiva. A Sociedade Brasileira de Pediatria e a Academia Americana de Pediatria alertam que a simples presença de um frênulo aparentemente curto não constitui indicação cirúrgica. O diagnóstico deve ser funcional: é necessário demonstrar que a restrição da língua está causando um problema relevante, principalmente na transferência de leite, e que a dificuldade persiste apesar de apoio adequado à amamentação”, alertou a pediatra.
Além dos riscos inerentes ao procedimento, e que todas as crianças submetidas ficam sujeitas, realizar a cirurgia sem a indicação adequada prejudica na identificação das questões que, de fato, estão causando dificuldades nessa amamentação, complementou Bottosso. “A frenotomia pode reduzir a dor materna em alguns casos selecionados, mas não há garantia de melhora completa ou duradoura da amamentação. Mesmo após uma intervenção corretamente indicada, a dupla mãe-bebê geralmente continua necessitando de acompanhamento. E a aparência do frênulo, isoladamente, não determina a necessidade de cirurgia. Muitos bebês com frênulo curto ou inserido mais anteriormente mamam normalmente, ganham peso e não precisam de nenhuma intervenção. A mensagem central é que algumas crianças realmente podem se beneficiar, mas a indicação deve ser criteriosa. O objetivo não é negar um procedimento necessário, e sim evitar intervenções sem benefício comprovado e assegurar que cada mãe e cada bebê recebam uma avaliação completa e individualizada”, destacou.




