Cidadão

Curta “Poceiros” estreia nesta sexta (21) no Cine Jardim, em Pernambuco

Filme dirigido por Guilherme Peraro adapta conto de Mário de Andrade e aborda relações de poder no campo

O curta-metragem “Poceiros”, escrito, dirigido e produzido por Guilherme Peraro, estreia no circuito de festivais nesta sexta-feira (21), às 19h, no Cine Teatro Cultura, em Belo Jardim (PE). A sessão integra a Competição de Curtas-Metragens do IX Cine Jardim – Festival Latino-Americano de Cinema de Belo Jardim. Produzido pela Kinopus, o filme foi realizado com patrocínio do Governo Federal e da Prefeitura de Londrina, por meio da Lei Paulo Gustavo.

Rodado em maio de 2025, em Londrina e Rolândia, o curta é uma adaptação de “O Poço”, conto de Mário de Andrade publicado postumamente em 1947 na coletânea “Contos Novos”. A trama acompanha Joaquim Prestes, um fazendeiro rico e autoritário que, após perder um objeto de estima, passa a explorar seus empregados. A narrativa aborda desigualdade, relações de poder e opressão no trabalho rural.

Foto: Divulgação

A ideia de adaptar o conto surgiu muito antes da produção. Peraro conta que leu “O Poço” ainda no Ensino Médio e que a história permaneceu em sua memória. Anos depois, ao conhecer o trabalho “Works”, de Sebastião Salgado, especialmente as fotografias do garimpo de Serra Pelada, encontrou uma conexão visual com a obra. “Aquele contraste do preto e branco na pele dos trabalhadores cheios de lama me relacionou diretamente com a história”, afirmou.

Para o diretor, a atualidade do conto está principalmente nas relações humanas apresentadas por Mário de Andrade. “A história se mantém atual mais pela profundidade dos personagens e suas relações de afetividade, de raiva, de desprezo e de compreensão”, explicou. A própria experiência profissional de Peraro, formado em engenharia civil e com atuação na construção civil, também contribuiu para a aproximação com o tema.

Adaptação e locações

Na passagem do conto para o cinema, a equipe preservou a tensão da narrativa e ampliou elementos que poderiam ser explorados pela linguagem audiovisual. O trabalho pesado na abertura do poço, a paisagem rural e os conflitos entre patrão e empregados são reforçados pela fotografia e pelo desenho de som.

Cineasta Guilherme Peraro. Foto: Renata Cabrera/ Divulgação

A câmera também acompanha as mudanças na relação de poder entre os personagens. Joaquim Prestes é inicialmente filmado em contra-plongée, enquadramento que aumenta sua sensação de autoridade, enquanto os trabalhadores aparecem em posições de inferioridade. Ao longo da história, essa relação se inverte. “Os trabalhadores aparecem normalmente em posição de inferioridade ao patrão no início, mas que se invertem no decorrer do filme”, disse Peraro.

O som dos pássaros, do sarilho utilizado na abertura do poço e uma trilha composta principalmente por instrumentos de percussão contribuem para a construção da atmosfera. Segundo o diretor, esses elementos formam uma espécie de “sinfonia rural”.

A adaptação também reduziu personagens e histórias paralelas presentes no conto original. Magruço, por exemplo, reúne características de diferentes trabalhadores da obra de Mário de Andrade e representa uma postura mais organizada diante das relações trabalhistas. Já os personagens Joaquim Prestes, Zé e Albino mantêm o eixo principal do conflito entre patrão e empregados.

As locações foram escolhidas para aproximar o filme do universo descrito por Mário de Andrade. A história original se passa em um pesqueiro às margens de um rio, no interior de São Paulo, e a equipe encontrou cenário semelhante às margens do Rio Tibagi. “O pesqueiro encontrado à margem do Rio Tibagi era quase que um cenário pronto para o curta”, contou Peraro.

Rolândia também foi utilizada como cenário para a fazenda e a casa de Joaquim Prestes, especialmente na Fazenda Belmonte. Para o diretor, o município ainda preserva construções de antigas sedes de fazendas que ajudam a compor o ambiente retratado no filme.

Rodrigo Grota, que assina a direção de produção ao lado de Jackeline Seglin, também destacou a escolha das locações. Segundo ele, o espaço às margens do Tibagi trouxe “uma certa verdade dramática” e uma textura atemporal ao filme. A construção do poço cenográfico foi um dos principais desafios da produção.

Equipe e trajetória

A produção contou majoritariamente com profissionais de Londrina e região. Grota destacou a experiência acumulada pela equipe local ao longo de quase 30 anos de produção cinematográfica. “Como já havíamos trabalhado juntos em outros projetos, o trabalho fluiu de forma espontânea”, afirmou.

O elenco principal é formado por Giovanni Venturini, como Albino; José Maschio, como Joaquim Prestes; Den Braen Macedo, como Magruço; Nivaldo Lino, como Zé; e Emerson Grotti, como Caseiro. A direção de fotografia, color e projeto gráfico é de Guilherme Gerais; a direção de arte, de Gelson Amaral; os figurinos, de Barbara Doria; e a trilha sonora original, de Otávio Santos.

Peraro é produtor e um dos criadores da Mostra Londrina de Cinema e da Kinopus. Como diretor, estreou em 2001 com o curta “Pressa” e, desde então, dirigiu outros trabalhos, incluindo “Parque Guanabara”, “Os Tiranos não Passeiam”, “Diligência” e “Se Quiser Morrer Agora”. “Poceiros” é seu sétimo curta de ficção em 25 anos de trajetória.

O filme chega aos festivais após “Marmita”, que recebeu o Prêmio de Aquisição do Canal Brasil na Mostra de Cinema de Tiradentes, em 2025. Segundo Peraro, a experiência com o trabalho anterior também contribuiu para “Poceiros”, especialmente na atuação com atores não profissionais. A nova produção teve orçamento duas vezes maior que “Marmita”, contou com quatro dias de filmagem e utilizou um poço real e outro cenográfico para a realização das cenas.

Para Grota, a estreia em uma competição latino-americana também evidencia a atuação de Peraro como diretor. “Muita gente conhece o Guilherme Peraro mais como produtor, mas ‘Poceiros’ já é o sétimo curta de ficção dirigido por ele”, afirmou.

Texto: Laura Gonçalves, sob supervisão dos jornalistas do Núcleo de Comunicação (N.Com) da Prefeitura de Londrina 

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