Cidadão

Guarda Municipal oferece instrução de Defesa Pessoal para mulheres vítimas de violência

A atividade reuniu mulheres que possuem medidas protetivas de urgência e trabalhou técnicas de autodefesa, desvencilhamento e proteção

Mais do que aprender a se defender, conhecer o próprio potencial de reação, ganhar confiança e saber que existe uma rede preparada para acolher e proteger. Foi com esse propósito que a Prefeitura de Londrina realizou, na noite de quinta-feira (24), uma instrução de defesa pessoal com mulheres atendidas pelos serviços municipais de prevenção e enfrentamento à violência doméstica e familiar. A iniciativa foi organizada pela Secretaria Municipal de Defesa Social (SMDS), por meio da Guarda Municipal de Londrina e da Guarda da Mulher, em parceria com a Secretaria Municipal de Políticas para as Mulheres (SMPM).

Instrutoras demonstram técnicas de defesa. Foto: Bruno Amaral / SMDS

A atividade ocorreu na sede da Guarda Municipal de Londrina e reuniu 13 mulheres que já tiveram contato com os serviços da rede de proteção e atendimento às vítimas de violência, especialmente aquelas que possuem medidas protetivas de urgência.

A iniciativa começou como um projeto-piloto e foi pensada para oferecer às participantes conhecimentos que podem ajudar em uma eventual situação de risco. Durante a instrução, elas participaram de alongamentos e exercícios preparatórios e, na sequência, aprenderam técnicas de defesa pessoal e desvencilhamento, incluindo formas de escapar de situações em que possam ser agarradas ou imobilizadas pelos braços ou pelos cabelos, entre outras possibilidades.

A proposta, conforme explicaram as instrutoras, não é estimular o confronto ou uma reação desproporcional, mas permitir que a mulher tenha conhecimento para se proteger, criar uma oportunidade de afastamento e buscar ajuda.

A instrução foi conduzida pelas guardas municipais Mileni Rodrigues, que pratica muay thai há 14 anos, possui experiência como instrutora em academias e atualmente também pratica jiu-jitsu, e Patrícia Guimarães, que é educadora física.

Defesa pessoal como ferramenta de proteção

A guarda e educadora física Patrícia Guimarães destacou que a atividade física já exerce papel importante na saúde física e mental, mas que, diante da realidade da violência contra as mulheres, o conhecimento de técnicas de autodefesa também pode representar uma ferramenta adicional de proteção.

Instrutoras GMs Patrícia Guimarães e Mileni Rodrigues (à direita). Foto: Bruno Amaral / SMDS

“O exercício físico já é importante para a nossa saúde física e mental. No entanto, infelizmente, por conta do alto índice de violência contra a mulher, a proteção, a autodefesa, a aula de defesa pessoal são importantes para que ela possa aprender a se defender, não retribuir na mesma moeda, não agredir com uma proporção maior, mas se defender e saber pedir ajuda. Acho que essa é a ideia principal”, explicou Guimarães.

A proposta foi bem recebida pelas participantes, que puderam experimentar os movimentos e compreender, na prática, como determinadas técnicas podem ser utilizadas em uma situação de perigo.

Para Mileni Rodrigues, o resultado da primeira experiência já demonstra o potencial da atividade. “Eu acredito que essa iniciativa pode dar frutos, ter um futuro, porque as mulheres se interessam em aprender, em saber se defender. Hoje eu falei para elas: se vocês saírem pelo menos com um golpe gravado na memória de vocês, para mim já vai ter valido muito a pena”, contou.

Segundo a instrutora, o objetivo é que cada participante leve consigo pelo menos parte do conhecimento adquirido. “Tenho certeza de que cada uma levou um pouquinho para casa e entendeu a importância de saber se defender em uma situação de perigo”, completou.

Foto: Bruno Amaral / SMDS

Uma ação que pode chegar a mais mulheres

Para a secretária municipal de Políticas para as Mulheres, Marisol Chiesa, a instrução em Defesa Pessoal é uma ação importante e necessária, especialmente por começar justamente com mulheres que já estão sendo acompanhadas pela rede de proteção.

“É uma ação desejada e necessária. Nós estamos aqui reunidas com mulheres que são atendidas pelo Centro de Atendimento à Mulher, mulheres que têm medidas protetivas, e elas estão hoje aprendendo um curso de autodefesa. Toda mulher precisa ter esse curso”, afirmou.

Segundo Chiesa, a experiência inicial poderá servir como base para uma futura ampliação da iniciativa. “Estamos iniciando este piloto com essas mulheres e já muito felizes com a iniciativa da nossa Guarda Municipal. A ideia é expandir essa iniciativa para a cidade de Londrina, essa cidade que cuida das suas mulheres”, destacou.

A secretária também ressaltou a importância da atuação conjunta dos órgãos municipais. “É a união entre todas as secretarias, mas, em especial, a Guarda Municipal, através da Guarda da Mulher, apoiando, cuidando e estando junto com a Secretaria Municipal de Políticas para as Mulheres. É esse cuidado que nós precisamos e merecemos”, completou.

Números mostram dimensão da atuação

Londrina conta com uma estrutura permanente de atendimento às mulheres em situação de violência. Segundo as informações dos 1º e 2º Juizados de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher de Londrina, existem 3.275 medidas protetivas ativas no município. Destas, 2.708 estão sendo assistidas diretamente pela Guarda da Mulher e estão cadastradas junto ao Botão de Emergência habilitado no aplicativo institucional 153 Cidadão. O acesso ao botão é oferecido a todas, mas a adesão é facultativa.

No mesmo período, as equipes operacionais da Guarda Municipal atenderam 328 casos de flagrantes relacionados à Patrulha Maria da Penha no município. A região norte concentrou 22,9% dos casos, enquanto a região leste registrou 19%, os dois maiores índices entre as regiões de Londrina.

Ainda em 2026, a Guarda da Mulher realizou 1.674 pós-atendimentos às mulheres acompanhadas pela Patrulha Maria da Penha. Durante esse acompanhamento, é disponibilizada a instalação do Botão de Emergência por meio do aplicativo 153 Cidadão.

Também foram realizadas mais de 40 ações integradas à Rede de Proteção à Mulher Vítima de Violência Doméstica e Familiar, fortalecendo a atuação conjunta dos órgãos e serviços envolvidos no atendimento e na proteção das mulheres em situação de violência.

Conhecer os direitos e saber pedir ajuda

Para o secretário municipal de Defesa Social, tenente-coronel Ricardo Eguedis, a proteção precisa reunir conhecimento, preparo e acolhimento. “Estamos trabalhando para que as mulheres tenham pleno conhecimento dos seus direitos, mas estejam também preparadas e acolhidas. O primeiro passo no combate à violência contra as mulheres começa pela denúncia”, reforçou.

Foto: Bruno Amaral / SMDS

Eguedis também destacou os canais disponibilizados pela Guarda Municipal para situações que necessitem de atendimento. “A Guarda Municipal está à disposição pelo telefone de emergência 153 e pelo aplicativo 153 Cidadão para recebermos os chamados”, acrescentou.

Entre as participantes estava Julieni Santos, assistente jurídica, que saiu da primeira aula com a percepção de que o conhecimento adquirido pode fazer diferença diante de uma situação inesperada. “Esse projeto é de suma importância para nós, mulheres, aprendermos a nos defender. Parabéns pela iniciativa das meninas da Guarda Municipal. A primeira aula foi maravilhosa. Conseguimos aprender bastante e eu já saí mais confiante”, relatou.

Segundo ela, muitas situações podem parecer distantes da realidade cotidiana até que aconteçam. Por isso, ter algum conhecimento prévio pode fazer diferença. “São golpes e situações que você está ali no dia a dia e pensa que não vai acontecer nada com você. Se eles vierem, a gente já está preparada. Numa aula só, a gente já se sentiu mais segura”, afirmou.

Foto: Bruno Amaral / SMDS

Quando o giroflex representa alívio

Ao final da instrução, as participantes também tiveram espaço para compartilhar experiências, sentimentos e situações difíceis vividas ao longo da vida. O momento se transformou em uma oportunidade de desabafo, acolhimento e fortalecimento.

Uma das alunas, que não será identificada para preservar sua segurança, se emocionou ao relatar uma situação em que precisou acionar a Patrulha Maria da Penha após o descumprimento de uma medida protetiva por parte do ex-companheiro.

A mulher contou que, ao perceber o giroflex da viatura da Guarda Municipal em frente à sua residência, sentiu imediatamente um alívio. A equipe chegou rapidamente ao local e o agressor foi detido em flagrante.

O relato emocionou as demais participantes e trouxe para dentro do tatame uma dimensão concreta do trabalho realizado diariamente pela Patrulha Maria da Penha: para uma mulher que está em uma situação de medo, a chegada de uma equipe de segurança pode representar a certeza de que ela não está sozinha.

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