Londrina inicia implantação de teste mais preciso para prevenir câncer de colo de útero
Teste molecular detecta tipos do vírus HPV, associados à doença, e possibilita acompanhamento direcionado conforme o risco identificado
O câncer de colo de útero é o terceiro mais incidente entre as mulheres brasileiras, e a quarta causa de morte por câncer na população feminina. Por ano, são estimados 19.310 novos casos no país, sendo 1.120 apenas no Paraná. Apesar de a rede pública de saúde ofertar duas ferramentas extremamente seguras e eficazes para prevenir sua ocorrência, que são a vacinação contra HPV e o rastreamento com exame Papanicolau, esse câncer ainda representa um grande desafio.

Para reverter esse cenário, nesse mês, marcado pela Campanha Outubro Rosa, a Secretaria Municipal de Saúde (SMS) deu início à implementação de uma tecnologia ainda mais eficiente na rede municipal: o rastreamento com teste molecular de DNA-HPV oncogênico. Os primeiros kits do exame serão utilizados neste sábado (24), com as usuárias que agendaram previamente a participação no mutirão de atendimento da Campanha Outubro Rosa.
Infecções persistentes por Papilomavírus Humano (HPV) são associadas à grande maioria dos casos de câncer no colo de útero. Dessa forma, diminuir o contágio pelos tipos oncogênicos do vírus, que é muito comum, compõe a prevenção primária contra esse câncer. E para isso a rede pública oferta a vacinação trivalente contra HPV, para meninos e meninas de 9 a 14 anos, pacientes oncológicos na faixa etária de 9 a 45 anos, além de outros grupos especiais.

Outra medida preventiva é o rastreamento, direcionado a todas as mulheres de 25 a 64 anos que iniciaram a vida sexual, inclusive as que não possuem sintomas ou queixas ginecológicas. O Papanicolau, como é mais conhecido o exame citopatológico, detecta lesões precursoras que, mediante o tratamento adequado, impedem que essa lesão evolua para câncer.
Disponibilizado nas Unidades Básicas de Saúde (UBSs), o exame preventivo deve ser feito anualmente. Após dois resultados negativos seguidos, o intervalo para realizar o exame passa a ser de três anos. Nos casos em que é identificada infecção por HPV ou lesão, pode ser indicado o acompanhamento semestral ou a realização de novos exames, como colposcopia ou biópsia.
Segundo a enfermeira e coordenadora em Saúde da Mulher, Priscila Colmiran, na rede municipal de saúde em Londrina são coletados, em média, quase 2 mil exames preventivos por mês. “Em períodos comemorativos, como março, Mês da Mulher, e outubro, fazemos entre 4 mil e 5 mil coletas”, contou.

E a partir desse mês, teve início a substituição gradual do preventivo Papanicolau pelo teste molecular de DNA-HPV. A distribuição dos testes DNA-HPV, adquiridos pelo Ministério da Saúde, é feita aos municípios pela Secretaria de Estado da Saúde (SESA), por meio das Regionais de Saúde. “A substituição do teste citopatológico para o molecular está sendo feita de forma gradual, planejada e pactuada no Sistema Único de Saúde (SUS). Já chegaram e foram distribuídos aproximadamente 30 mil kits. O planejamento da Sesa, neste momento, é de seguir as fases da implementação do novo teste no estado para que, em 2027, todos os municípios estejam ofertando o exame DNA-HPV”, adiantou a diretora de Atenção e Vigilância em Saúde da Sesa, Maria Goretti David Lopes.
Para as usuárias, não há mudanças no momento do exame. Já a análise do material coletado com o kit DNA-HPV é feita na Central de Testagem, viabilizada no Paraná pela Sesa por meio de cooperação técnica com o Instituto de Biologia Molecular do Paraná (IBMP)/ Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). “O tempo médio de processamento e apresentação de resultado é de 12 dias. Vemos o alto valor estratégico deste novo exame para a saúde pública, porque significa possibilidade de diagnóstico precoce e, consequentemente, de tratamento oportuno, redução da incidência da doença e da mortalidade”, completou Lopes.

Dados mundiais indicam que o câncer de colo de útero é considerado raro nas mulheres com idade até 30 anos, e cerca de 70% da mortalidade ocorre nas mulheres com mais de 45 anos. A coordenadora em Saúde da Mulher da SMS explicou que o teste DNA-HPV consegue detectar o agente causador antes mesmo de haver lesão grave, o que permite abordagem e tratamento precoce mediante resultado positivo. “É um método altamente eficiente, muito preciso nos resultados, pois consiste em genotipagem do vírus, o que qualifica ainda mais o resultado pela identificação precisa dos principais tipos do vírus HPV que causam o câncer”, informou.
Em muitos casos de contágio por HPV, a infecção provocada pelo vírus regride de forma espontânea, sem que seja necessária nenhuma intervenção. Porém alguns subtipos são considerados de alto risco para desenvolvimento do câncer de colo de útero, em especial os tipos 16 e 18. Com o exame DNA-HPV, é possível não só conferir se há uma lesão no colo do útero, como se há a presença do vírus e qual o seu subtipo.

Com o teste molecular, o intervalo para rastreamento após resultado negativo salta de três para cinco anos. E, segundo a médica intervencionista do SAMU Londrina e cirurgiã oncológica do Hospital do Câncer de Londrina, Kelly Fernanda Pereira Silva, esse é um dos benefícios trazidos pelo novo modelo de teste no rastreamento. “Com esse novo teste, a gente consegue duas coisas muito importantes. Primeiro, detectar as pacientes que têm o vírus do HPV, e os subtipos com mais risco para terem lesões de colo de útero, que podem levar a câncer. Em segundo lugar, nas pacientes que são HPV negativas, é possível tirá-las do rastreamento durante cinco anos. As lesões provocadas pelo vírus do HPV são de evolução lenta, levam anos e anos até se transformar em câncer. Então, o preventivo e o teste de DNA-HPV são importantes porque, fazendo na frequência correta, não tem como ter câncer, é possível evitar essa doença”, enfatizou.
A médica detalhou que a aplicação do teste DNA-HPV permite direcionar a atenção às pacientes que forem detectadas com o vírus HPV. “É muito importante todas as mulheres saberem que ter o HPV positivo não quer dizer nem que vai ter câncer, nem que vai ter nenhuma lesão. É um vírus muito difundido e de transmissão muito fácil, 80% da população que já teve qualquer contato sexual vai ter esse vírus e pode positivar em algum momento da vida”, esclareceu.

Ela complementou que o acompanhamento varia, conforme o subtipo do vírus identificado no exame. E reforçou o quão essencial é que todas as mulheres na faixa etária do rastreamento compareçam para fazer o exame, seja ele o DNA-HPV ou o Papanicolau. “Não é uma opção você não fazer o exame, porque o câncer de colo de útero dá sinais e sintomas quando já se transformou em um câncer. Mas as lesões HPV induzidas, lesões iniciais que podem levar a câncer se não tratadas no momento apropriado, elas são completamente assintomáticas. E o único jeito de detectar neste momento ideal para fazer o tratamento, que nessa fase é muito simples, é pelo rastreamento. É o jeito de evitar que esse câncer gravíssimo te atinja”, alertou.
Quanto à vacinação contra o vírus HPV, também ofertada nas UBSs, a cirurgiã oncológica destacou que quanto mais cedo for feita a imunização, maior a eficácia. “A vacina de HPV disponível na rede pública engloba o vírus 16 e o 18. E a maior taxa de eficácia é quando ela é aplicada antes do início da atividade sexual. Então quanto mais cedo você vacinar as crianças e adolescentes, que é a idade de 9 a 14 anos, maior a taxa de imunidade. A gente espera que, no futuro, o câncer de colo de útero pare de existir quando toda a população maior esteja vacinada”, completou.

Mutirão de Atendimentos – Outubro Rosa
Cinco Unidades Básicas de Saúde (UBSs) abrem neste sábado (24), das 9h às 17h, dentro da programação da Campanha Outubro Rosa coordenada pela Secretaria Municipal de Saúde (SMS). Serviços como coleta e agendamento de exames, vacinas, encaminhamentos para consultas e avaliações estarão disponíveis exclusivamente para o público feminino. Cada unidade atenderá a comunidade de uma das cinco regiões urbanas de Londrina: Vivi Xavier (norte), Marabá (leste), Santiago (oeste), Piza (sul) e Centro.
Para a realização do exame de rastreio para câncer de colo uterino as vagas já esgotaram. Demais serviços seguem disponíveis para busca espontânea das usuárias, inclusive o agendamento de mamografia para rastreio do câncer de mama, disponível para mulheres de 40 a 74 anos.
Endereço das UBSs que abrem sábado (24), das 9h às 17h:
Marabá: Rua das Goiabeiras, 385
Vivi Xavier: Rua John Lennon, 342
Santiago: Rua Aracy Soares Dos Santos, 100
Centro: Rua Sen. Souza Naves, 754
Piza: Rua Veneza, 546




