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Espetáculo na Vila Triolé conta histórias de mulheres migrantes que vivem em Londrina

Focada em mulheres venezuelanas residentes na cidade, peça aborda identidade, pertencimento e recomeços em duas apresentações gratuitas neste domingo (2)

O espetáculo “Mujeres Valientes en Vuelo” será apresentado neste domingo (2), na Vila Cultural Triolé (rua Etienne Lenoir, 155), com sessões gratuitas às 16h e às 18h, ambas com interpretação em Libras. A montagem reúne mulheres venezuelanas que transformam suas próprias experiências de migração em cena, abordando temas como pertencimento, identidade, saudade, coragem e recomeços.

A pesquisa que deu origem ao espetáculo começou durante a pandemia pela professora, pesquisadora e diretora Laura Franchi, que passou a desenvolver estudos sobre migração junto a estudantes da Universidade Estadual de Londrina (UEL). “O espetáculo começou muito antes de existir. O primeiro contato aconteceu durante uma montagem do curso de Artes Cênicas da UEL, em 2021, na montagem “Brazil, paraíso da tolerância”, quando conversamos com estudantes migrantes da UEL. Ali entendemos que não estávamos lidando apenas com um tema, mas com uma causa à qual precisávamos nos aliar”, relembrou.

Depois desse espetáculo, a professora ingressou no doutorado na UDESC, onde começou seu trabalho com as mulheres venezuelanas migrantes que vivem na Ocupação Flores do Campo, na zona norte, em uma parceria com o CRAS Norte B e a Cáritas de Londrina. “Isso ocorreu durante 2023, 2024 e, em 2025, algumas mulheres aceitaram aprofundar suas autobiografias migrantes, criando o espetáculo ‘Mujeres valientes en vuelo’”, contou Laura.

Segundo a diretora, a pesquisa foi construída sobre quatro pilares: o diálogo com pessoas migrantes, o rigor ético da pesquisa acadêmica, os estudos sobre feminismos (especialmente o feminismo negro) e o teatro documentário e autobiográfico. Em vez de transformar as histórias em ficção, a proposta foi preservar as experiências das participantes, respeitando seus limites e o tempo de cada uma. “Foi um processo de muita escuta. Havia coisas que elas queriam compartilhar e outras que ainda não estavam prontas para contar. O palco também estabelece um limite e tudo acontece no tempo delas”, explicou.

Foto: Fabio Alcover

Construção coletiva

Em 2024, a pesquisa deu origem ao processo de criação do espetáculo durante oficinas realizadas na ocupação Flores do Campo. Nos encontros, as participantes compartilharam memórias, organizaram coletivamente suas narrativas e construíram o material que passou a compor a montagem. A direção assumiu o papel de organizar essas histórias, enquanto as decisões sobre o que seria apresentado permaneceram com as próprias mulheres. Até hoje, novos relatos podem surgir durante as apresentações.

Para o produtor Matheus Mendes, o trabalho foi desenvolvido a partir da escuta das participantes. “As histórias eram delas, então cabia a elas decidir como seriam contadas. O trabalho da direção foi costurar tudo aquilo que elas queriam dizer, sem retirar delas o protagonismo”, afirmou.

Entre as participantes está a venezuelana Kamila Alejandra Novak Chirinos, que acompanha o projeto desde 2023 e passou a integrar o elenco neste ano. Para ela, transformar a própria trajetória em um espetáculo representa uma oportunidade de aproximar o público da realidade vivida por quem precisou deixar o país de origem. “Significou muito para mim, porque as pessoas conseguem entender um pouco do que a gente passa”, compartilhou.

Projeto Mujeres en Vuelo. Foto: Fábio Alcover / divulgação

Transformações e diálogo com o público

Desde a estreia, em 2025, o espetáculo tem provocado mudanças tanto nas participantes quanto no público. De acordo com Matheus Mendes, as atrizes passaram a enxergar o teatro como um espaço de fortalecimento e construção coletiva. “A mudança nas atrizes fica evidente a cada apresentação. Elas têm se apropriado cada vez mais da linguagem teatral para contar suas histórias e entendido que suas vozes podem ser ouvidas por meio desse processo”, frisou.

Kamila contou que a participação na montagem também transformou a forma como enxerga sua própria trajetória. “Hoje eu percebo que fui muito corajosa. Migrar não foi fácil”, disse.

A circulação por diferentes espaços culturais de Londrina também tem despertado reflexões entre os espectadores. Após as apresentações, são frequentes conversas sobre migração, xenofobia, pertencimento e a importância de criar espaços para que pessoas migrantes contem suas próprias histórias por meio da arte. Kamila espera que esse diálogo continue para além do palco. “Quero que as pessoas entendam que migrar não é fácil e que todos nós somos iguais”, afirmou.

Foto: Divulgação

Encontro entre arte e comunidade

Para o membro do grupo gestor da Vila Cultural Triolé, Gerson Bernardes, receber o espetáculo reforça o papel do espaço como ponto de encontro entre artistas e comunidade. “A Vila Triolé foi pensada para receber atividades artísticas populares e promover o encontro entre quem produz cultura e o público. Quem passa por aqui sempre sai com algo diferente depois dessa troca”, destacou.

Segundo Bernardes, iniciativas como essa só são possíveis porque encontram espaços comprometidos com o acesso democrático à cultura. “É em espaços como as Vilas Culturais que discussões sobre migração, diversidade e direitos humanos conseguem acontecer de forma diversa, inclusiva e popular. Esse é um exercício do direito à cultura”, completou.

Espetáculo segue em transformação

O coletivo pretende ampliar o projeto nos próximos anos por meio de novos editais de incentivo à cultura. A proposta é envolver mais mulheres migrantes nas atividades e, futuramente, desenvolver ações com participantes de outras nacionalidades. Laura Franchi ressaltou que a montagem continua em constante transformação, acompanhando o amadurecimento das participantes. “Há histórias que elas ainda não querem contar e outras que surgem inesperadamente durante um encontro com o público. O espetáculo continua vivo porque acompanha o tempo e a vontade de quem está em cena”, concluiu.

Kamila afirmou que participar do projeto também ajudou a reconstruir sonhos desde que chegou ao Brasil. Hoje, ela deseja conquistar autonomia por meio do próprio trabalho. “Consegui me entender melhor com outras pessoas. Agora quero ter meu espaço para trabalhar com o que gosto de fazer, que é sobrancelhas e cílios”, contou.

O projeto “Mujeres En Vuelo: Trajetórias Migrantes em Londrina” é realizado com recursos do Programa Municipal de Incentivo à Cultura (Promic), da Secretaria Municipal de Cultura de Londrina.

Texto: Laura Gonçalves, sob supervisão dos jornalistas do Núcleo de Comunicação (N.Com) da Prefeitura de Londrina.

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