Cidadão

Exposição virtual sobre italianas pioneiras e descendentes em Londrina é lançada

A mostra “O Chamado do Sangue” compila fotografias e depoimentos que destacam a contribuição histórica dessas mulheres; link ficará disponível ao público

A exposição virtual “O Chamado do Sangue”, que traz depoimentos de mulheres italianas e descendentes de italianos pioneiros em Londrina, terá cerimônia de lançamento nesta quinta-feira (22). A iniciativa faz parte do projeto “Os Bravissimi na Terra Roxa”, realizado pela Associação Cultural Italiana de Londrina, a I Bravissimi, em parceria com o Museu Histórico de Londrina, e tem patrocínio da Secretaria Municipal de Cultura por meio do Programa Municipal de Incentivo à Cultura (Promic). O evento será às 19h, no Espaço Cultural da Associação Médica de Londrina, e é exclusivo para convidados, por conta da restrição de lotação do local. O site da exposição, porém, ficará disponível para acesso gratuito do público após o lançamento, e poderá ser acessado por este link: https://www.ibravissimilondrina.org/.

“O Chamado do Sangue” é uma experiência virtual que traz registros fotográficos antigos, textos e trechos de entrevistas coletadas de dezembro de 2019 a 2022. São homenageadas sete mulheres, descendentes de imigrantes italianos que chegaram em Londrina entre as décadas de 1930 e 1970, e que contam sobre suas experiências de vida e as contribuições de seus antepassados na formação da cidade.

A pesquisa foi iniciada pelo historiador Jorge Romanello, que faleceu em 2020, e foi retomada pelos historiadores Taiane Micali e Luís Gustavo Cavalheiro Silva, junto à I Bravissimi e ao produtor cultural Álvaro Canholi, da PÁ! Artística. “Nós lançamos o projeto no aniversário da cidade, 10 de dezembro de 2019. Nosso intuito inicial era produzir uma exposição física mesmo, que reunisse fotografias, cartas, toda sorte de objetos guardados por acervos familiares dos descendentes de italianos de Londrina, focando na contribuição do trabalho dessa população para a cidade”, contou o produtor da exposição virtual, Álvaro Canholi.

Canholi indicou que será lançado, nos próximos quinze dias, um catálogo digital que traz informações mais completas sobre a pesquisa. “Estamos desenvolvendo um catálogo bilíngue, mas também teremos versões impressas em português e em italiano, que serão disponibilizadas em bibliotecas, museus, espaços culturais no Brasil e na Itália, e a exposição virtual será divulgada por meio dele também”, destacou.

A historiadora Taiane Micali (à direita) durante entrevista com Julieta Caminhoto Rotondo. Foto: arquivo pessoal

De acordo com a historiadora Taiane Micali, que coordenou as entrevistas para o projeto, a pandemia fez com que o foco, o tema central e a forma da exposição precisassem ser modificados. “Percebemos logo nas primeiras entrevistas que a história das mulheres não era enfatizada. Os nomes dos homens e o trabalho que eles fizeram era lembrado, mas não o das mulheres. Sabemos que as mulheres tiveram um papel ativo na construção da cidade, por isso, para a exposição, buscamos valorizar o trabalho delas, tanto doméstico como das que conseguiram estudar e ter uma profissão no espaço público, para mostrar o quanto elas foram e são importantes para o desenvolvimento de Londrina”, ressaltou.

Conforme contou a diretora executiva da Associação I Bravissimi, organização que tem o intuito de estudar e divulgar a cultura e língua italiana em Londrina, Hylea Ferraz, o patrocínio do Promic foi fundamental para a pesquisa. “Há muitos anos, desde que estudei História na Universidade Estadual de Londrina, eu queria fazer uma exposição que trouxesse essa memória dos imigrantes italianos no norte do Paraná. Eu já conhecia muitas famílias que eu sabia que tinham fotos e objetos que poderiam ser expostos, e com o Promic conseguimos realizar as primeiras entrevistas. É um projeto que ainda não acabou, queremos que muitas outras histórias sejam contadas”, revelou. O projeto Cento Donne (cem mulheres) da Associação está reunindo materiais para contar a história de cem mulheres italianas e descendentes de italianos na cidade.

Segundo a engenheira e empresária Cristiana Veronesi, uma das homenageadas na produção, a experiência foi muito positiva. “Antes de minha mãe falecer, ela deixou um livro que ela escreveu contando histórias de quando e como meus avós e meus pais vieram da Itália. Eu também aprendi muita coisa com esse projeto, porque o livro tinha muitas informações que eu não sabia, então para mim foi riquíssimo e emocionante. Eu considero essa homenagem mais para elas, minha mãe e minhas avós, e recebo com muito carinho por elas também. Para mim foi muito gratificante, e acho muito importante e valioso lembrar da coragem dessas mulheres, como as minhas avós, que vieram da Itália sem saber o que iriam encontrar na América, fico até emocionada”, revelou.

Atriz Mel Campus. Foto: Edward Fao / divulgação

De acordo com a atriz e produtora cultural Melissa Andreazza, conhecida em Londrina como Mel Campus, a participação foi também emocionante. “Eu me sinto honrada de poder participar desse processo e de ter um lugar entre essas mulheres, primeiro pela questão de gênero, por ser uma mulher trans, por toda a luta que eu sempre tive em Londrina junto a projetos sociais, por toda a minha história na cultura, no teatro. É um reconhecimento de toda a minha luta, e também como alguém que traz a história dos italianos”, avaliou.

Andreazza ressaltou ainda o papel das mulheres italianas na perpetuação da cultura do país. “Até 1948, só os homens podiam passar o sobrenome italiano para os descendentes. Mas as mulheres sempre passaram essa cidadania de outras maneiras, a ancestralidade, através dessa ligação com o seio familiar, com as tradições, na proximidade com os filhos. Então, para mim é fantástico poder estar junto com essas mulheres e trazer à tona toda essa contribuição”, apontou. A atriz não estará presente na cerimônia, pois está trabalhando na Itália, mas será representada pela mãe e pela irmã.

São homenageadas na experiência virtual, além de Cristiana Veronesi e Mel Campus, as histórias da dentista e administradora Julieta Caminhoto Rotondo; da professora e doceira Valderês Pereira Penteado; da professora e museóloga Marina Zuleika Scalassara; da professora e historiadora Amélia Tozzetti Nogueira (in memoriam) – cujo depoimento já integrava arquivo do Museu Histórico de Londrina –; e da costureira e agricultora Otildes de Paula Budeu.

A cerimônia desta quinta presta respeito também à memória da professora e historiadora Amélia Tozzetti Nogueira, que faleceu no decorrer do projeto, ao historiador Jorge Romanello, que muito contribuiu para a realização da pesquisa histórica, e a Silvandira Ferraresi, que faleceu antes de ser entrevistada pelo projeto.

Comparecerão ao evento as mulheres homenageadas pela exposição que estiverem presentes em Londrina, os apoiadores estratégicos e pessoas que participaram do projeto, como representantes da Associação I Bravissimi, da Secretaria Municipal de Cultura, os designers responsáveis pela página virtual, os tradutores que produziram o catálogo e demais profissionais que contribuíram com o projeto, da Universidade Estadual de Londrina (UEL) e do Museu Histórico de Londrina, que é parceiro da pesquisa, e cuja equipe trabalhou na catalogação e digitalização do material fotográfico.

O projeto conta ainda com apoio do Espaço AML Cultural, Espaço Villa Rica, Hotel Crystal, Restaurante Brasiliano, Super Muffato, Estúdio Musical Flauta e Fole, Midiograf, Comitato degli italiani all’estero – COM.IT.ES (Circunscrição Paraná e Santa Catarina) e Vice-Consulado Honorário da Itália.

O Chamado do Sangue

O título da exposição faz referência à frase que é parte da experiência da atriz e produtora cultural Melissa Andreazza, conhecida em Londrina como Mel Campus. Ela contou que desde criança sabia de sua ascendência italiana, e que sentia o “chamado” para se conectar com o país de seus antepassados. “Fiquei muito emocionada quando me falaram o nome da exposição, porque é baseado em algo que eu contei em minha entrevista. Em 2006, eu morava na Suíça e tive um convite para festejar o Ano Novo em Veneza. Lá, conheci meu ex-marido, e quando fomos morar juntos, ele me disse para escolher onde eu queria morar. Eu escolhi Treviso. Tempos depois, quando iniciei o processo de adquirir cidadania italiana, comecei a levantar os documentos e descobri que meu tataravô veio de Treviso, de um lugar a dez minutos de distância de onde eu morava, o que eu não sabia antes. É algo que me deixa até arrepiada, é muito importante para mim, porque me dá um lugar a mais no mundo”, relatou.

Quando Mel comentou com um amigo italiano sobre a experiência de se sentir chamada de forma instintiva para aquela região, o amigo disse que, em italiano, o sentimento se chamava il richiamo del sangue, o chamado do sangue. “Ele disse que é essa sensação de que você precisa de alguma coisa a mais para se completar, para se encontrar. É um chamado do sangue para as suas origens, para a sua raiz, para o reconhecimento da sua ancestralidade. Me emocionei muito, e acho que o nome ficou bem poético”, revelou.

A atriz avaliou que a experiência de morar fora do Brasil trouxe uma conexão maior com os sentimentos de seus antepassados. “Eu fico imaginando, pela saudade que eu tenho de Londrina, como eles também se sentiam, querendo voltar para cá. Quero agradecer a todos os meus antepassados, o meu pai principalmente, André Andreazza, que me ensinou a pensar, a ser prudente. E por o nome Andreazza estar sendo lembrado, juntamente com o dessas outras famílias que ajudaram a escrever a história de Londrina em gerações passadas e futuras”, concluiu.

Texto: Débora Mantovani, sob supervisão dos jornalistas do Núcleo de Comunicação da Prefeitura de Londrina, com informações da assessoria de imprensa

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